O garimpeiro Francimar Pinheiro Neto, de 32 anos, uma das vítimas do ataque a brasileiros no Suriname no último dia 24, teve o rosto cortado a facão desde a orelha até a boca, perdeu todos dentes da frente e está com a gengiva dilacerada. Assim como ele, outros brasileiros feridos foram trazidos de avião na noite desta quarta-feira (30) de Paramaribo, capital do país vizinho, a Belém, no Pará, onde estão internados.

O lavrador Antônio Pinheiro Filho, de 35 anos, irmão de Francimar, contou ao R7 que ele só escapou da morte porque, depois de ser atacado e ferido, conseguiu pular em um rio:

- Meu irmão pulou no rio com a cara aberta e tudo e nadou até a margem para escapar.

De acordo com o irmão, Francimar está feliz por ter voltado ao Brasil, mas ainda assustado com o ataque sofrido na cidade de Albina, no Suriname:

- Ele está feliz de ter sido resgatado. Está assustado com a situação, mas tranquilo por estar com a família aqui em Belém.

Francimar Pinheiro Neto, maranhense de nascimento, imigrou para o Suriname há cinco anos em busca de um trabalho melhor. Sua história coincide com a de muitos outros brasileiros que foram ao país em busca do sonho do garimpo:

- Ele resolveu ir trabalhar no Suriname porque o serviço no Maranhão é muito dificil. Ele arriscou vida e procurou o garimpo lá no Suriname. Muitos maranhenses procuram emprego no garimpo.

Antônio conta que o irmão ainda não falou muito sobre o dia do ataque porque está com a fala prejudicada pelos ferimentos sofridos. Junto com um amigo da família, Antônio viajou dez horas de carro, do Maranhão ao Pará, para visitar Francimar.
Ele diz que o irmão ainda não tem planos para quando sair do hospital, mas que espera que o governo brasileiro dê algum tipo de suporte à família:

- Nós contamos com essa ajuda para que ele possa recomeçar a vida.

Antônio afirma que o atendimento recebido no hospital de Belém é "muito bom".

Ele também conta que, em 23 de dezembro, um dia antes do ataque, o irmão Francimar ligou para a família no Maranhão:

- Ele conversou com toda a família para desejar feliz Natal, mas não conseguiu falar comigo, porque meu celular estava fora de área.

Antônio diz que quando um desconhecido ligou em seu celular dizendo que o irmão "estava muito mal" no Suriname, pensou que fosse trote:

- Só acreditei quando entraram em contato com um primo no Maranhão, contando tudo o que tinha acontecido.

Entenda o conflito

Um ataque de quilombolas na fronteira do Suriname com a Guiana Francesa deixou 25 brasileiros feridos no dia 24 de dezembro, véspera do Natal. Cinco brasileiros continuam hospitalizados, sem risco de morte, e serão transferidos a Belém do Pará nesta quarta (30) num avião da FAB (Força Aerea Brasileira). O ataque teria sido uma retaliação à morte de um morador local, assassinado a faca por um brasileiro.

Os marrons - negros descentes de escravos da cidade de Albina - vivem na mesma região onde moram garimpeiros brasileiros, chineses e de outros países da região.

Segundo a Embaixada do Brasil em Paramaribo, quilombolas atacaram um acampamento onde moram cerca de 2.000 brasileiros que trabalham no garimpo. Segundo testemunhas, houve saques, estupros e assassinatos, mas o Itamaraty não confirma nenhuma morte. O padre José Virgílio disse ao R7 que pelo menos sete pessoas morreram no ataque.

Cerca de 300 quilombolas teriam participado do ataque. Uma mulher grávida, que estava gravemente ferida, foi a única brasileira transferida para um hospital da Guiana Francesa, que ficava mais próximo ao local. A cidade de Albina fica a aproximadamente 150 km da capital.

O Itamaraty nega qualquer crise diplomática com o país vizinho, uma antiga colônia holandesa. O governo do presidente Ronald Venetiaan manifestou "profunda desolação" com o ocorrido, segundo a diplomacia brasileira.