As duas semanas que reuniram chefes de Estado de 193 países para a Conferência do Clima em Copenhague terminou nesta sexta-feira, depois de um dia conturbado, com um acordo fraco sem valor de lei e adiando para a Conferência de 2010, que será no México, todas as decisões importantes, como as metas de redução de emissões globais e os compromissos dos países ricos ou em desenvolvimento. E as promessas de dinheiro - anunciadas em grande pompa no dia anterior - ficaram diluídas num texto que não tem qualquer força legal.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que fez nesta sexta-feira um discurso enfático cobrando ações dos países ricos, voltou para casa sem ver o milagre que mencionou em seu discurso . O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que passou menos de 24 horas na Dinamarca, considerou o acordo significativo, mas disse que o caminho para um pacto mais ambicioso ainda vai demorar e vai depender de uma maior confiança entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Segundo ele, o documento serve como base para uma ação internacional contra as mudanças climáticas.

- Não é suficiente para combater a ameaça da mudança climática, mas é um primeiro passo importante. Será muito difícil e ainda levará tempo (para um acordo mais ambicioso) - disse Obama.

Segundo o embaixador do Brasil para mudanças climáticas, Sérgio Serra, ninguém saiu satisfeito com o acordo:

- O Brasil não está satisfeito com este acordo, ninguém está contente. A falta de metas é lamentável.
Acordo não apresenta meta

Sob o título de "Acordo de Copenhague", o documento cita o limite de aumento de temperatura de 2 graus Celsius até o fim do século, mas não apresenta meta alguma para que isso ocorra, nem mesmo o compromisso protocolar de, até 2050, limitar as emissões a 50% do nível de 1990. O documento cita metas apresentadas voluntariamente pelos países, como a redução de 20% da União Europeia e de 17% dos Estados Unidos.

O texto cita a decisão previamente anunciada pelos países desenvolvidos de transferir US$ 30 bilhões de dólares até 2012 para as nações em desenvolvimento e, ainda, a criação de um fundo de US$ 100 bilhões ao ano a partir de 2020.

O texto sustenta" reconhecer o papel crucial da redução das emissões pela diminuição do desmatamento e da degradação das florestas (.)" e "estabelece imediatamente a criação de um mecanismo de REDD (compensação financeira para medidas de controle do desmatamento) para permitir a mobilização necessária".

- Foi um fracasso, muito decepcionante mesmo - resumiu Suzana Kahn, secretária de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente. - Tudo que vinha sendo negociado desde Bali (a última conferência do clima, em 2007), como trazer os EUA para um acordo legalmente vinculante, bem como os emergentes, ficou de fora.

Yvo de Boer, secretário-geral da Convenção de Clima da ONU, lamentou o rumo das negociações.

- Deveríamos ter conseguido mais - afirmou.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, limitou-se a dizer que a conferência marcou o começo de uma negociação maior, que deverá levar a um documento com valor de lei. A chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, tentou amenizar o fracasso. Para ela, Copenhague deu um passo importante, mas reconheceu que ainda serão necessários muitos outros. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, declarou:

- O texto que temos não é perfeito. Não tem compromissos. Um contrato é absolutamente vital.

O acordo foi costurado numa reunião entre o presidente americano e os líderes dos quatro grandes emergentes apelidados de Basic (Brasil, China, Índia e África do Sul). Mas supostamente deveria ter sido submetido a outras partes e aprovado pelos 193 países em plenário. Nada disso aconteceu.

- Obama saiu da reunião dizendo que ia falar com os europeus, não sei o que houve - contou Sérgio Serra.

Os principais negociadores brasileiros foram embora logo após o encontro, juntamente com Lula e a ministra Dilma Roussef. Apenas o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, ficou negociando até mais tarde.

Organizações não-governamentais estavam furiosas.

- A cidade de Copenhague foi transformada em cena de crime, com os culpados escapando para o aeroporto. Não há metas para cortes de emissões de carbono e não há acordo para um tratado legalmente vinculante (com força de lei) - afirmou John Sauven, diretor executivo do Greenpeace do Reino Unido.