A ligação de José Padilha com o festival de Sundance é antiga e simbólica. Os carvoeiros, que ele escreveu e produziu em 2000, foi mostrado no principal palco independente do planeta a convite do próprio festival. O filme, dirigido pelo inglês Nigel Noble, aborda a vida miserável das pessoas que trabalham na extração do carvão vegetal e concorreu ao prêmio latino-americano na Cinema Mundial, uma mostra mais restrita à ficção. Três anos depois, seu primeiro longa como diretor, o contundente documentário Ônibus 174 (2002), foi um dos filmes que inaugurou a mostra Documentário Mundial, criada dentro da política do evento de prestigiar e apoiar um gênero que já começava a dar sinais da vitalidade e crescimento (até então os títulos em competição do gênero na eram todos americanos). Agora, o cineasta carioca volta a Sundance, festival que acontece em Park City, Utah, de 21 a 31 de janeiro, Secrets of the tribe, ainda sem título em português, é um dos 12 selecionados entre 782 inscritos.

– Adoro o Sundance. Além de ser um grande festival, é um ambiente super bacana, onde sempre encontro muitos amigos documentaristas, é um prazer ter meu filme lá novamente – comenta Padilha, de volta às questões sociais, presentes inclusive em sua única incursão pela ficção e seu trabalho mais famoso, o polêmico Tropa de elite (2007), com o qual conquistou o Urso de Ouro em Berlim.

Produzido em parceria com a emissora britânica BBC, Secrets of the tribe investiga o escândalo e uma suposta disputa acadêmica na comunidade antropológica com relação à exploração de índios e tribos indígenas na bacia amazônica. Padilha rodou o longa na própria floresta e entrevistou índios alvos de pesquisas realizadas por antropólogos franceses.

– É um filme falado em muitas línguas, inglês, espanhol, italiano, francês e ianomâmi, que trata de maneira crítica a antropologia, analisando as pesquisas, os debates e os escândalos que envolveram e ainda continuam envolvendo a etnografia dos índios ianomâmis da Venezuela – define Padilha, já preparado para as questões específicas que certamente deverão ser levantadas sobre o filme nos debates em Sundance.

O diretor lembra que com Os carvoeiros precisou dar muitas explicações sobre as agressões ao meio ambiente e ao trabalho quase escravo mostrado no documentário. Ônibus 174, por sua vez, causou um enorme impacto – o público deSundance não tinha um conhecimento prévio da história do coletivo sequestrado por Sandro do Nascimento e de seu trágico desfecho, o que aumentou em muito o suspense da narrativa e do seu final – e suscitou uma grande curiosidade sobre por que a tragédia não conseguiu ser evitada. Por isso é sempre difícil uma avaliação prévia sobre a receptividade do público dos filmes independentes, uma plateia exigente e já acostumada com as questões sociais abordadas nos inúmeros documentários da programação.

– Para mim a receptividade a Secrets of the tribe é de fato uma incógnita, porque este filme é bastante contraintuitivo e diferente dos outros que já fiz – atesta Padilha, que aprova o espaço privilegiado que o gênero tem tido no Sundance, onde além das competitivas americana e mundial, os docs participam de todas as outras mostras do evento. – A meu ver, documentários exercem uma função importante por serem filmes que representam ocorrências do mundo objetivo com verossimilhança: a própria palavra já traz implícita uma conotação com a verdade.

Preocupado em dar cara aos números e estatísticas que envolvem questões polêmicas e suscitam debates, Padilha acrescenta um viés a mais em Secrets of the tribe:

– É o primeiro filme que faço fora do Brasil, e que envolve um assunto que sempre me interessou: a filosofia da ciência.

O cineasta espera que a mostra americana, mais uma vez, abra portas para o seu trabalho no exterior:

– O Sundance é inegavelmente uma vitrine para os diretores independentes. Participar da Documentário Mundial representa um passo importante na carreira do filme e no aumento das possibilidades de sua exibição mundo afora.