As eleições presidenciais deste domingo (13), no Chile, serão as primeiras após a morte de Augusto Pinochet e, coincidências à parte, podem trazer o fracasso da Concertación, coalizão de centro-esquerda que está no poder há quase 20 anos - desde que o ex-ditador, derrotado num plebiscito, deixou o poder no país. A Concertación lançou como candidato o ex-presidente Eduardo Frei, que enfrenta um forte empresário concorrente da direita e encara ainda a candidatura de um dissidente do Partido Socialista.
"Esta é a primeira eleição desde o retorno à democracia em que todos os candidatos se opuseram a Pinochet no plebiscito de 1988. [Sebastián] Piñera [candidato da direita] também se opôs a Pinochet. Isso o aproxima de setores moderados que estão cansados da Concertación, mas que também estavam temerosos de uma direita demasiado ligada ao autoritarismo", explica em entrevista ao G1 Patrício Navia, cientista político chileno e professor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Nova York.
As pesquisas para o pleito deste domingo apontam Piñera na frente, mas não com votos suficientes para garantir a vitória no primeiro turno. Segundo pesquisa do instituto Ipsos realizada em outubro, Piñera aparece com 36,7% das intenções de voto, contra 27,2% de Eduardo Frei e 17,8% do independente Marco Enríquez-Ominami. A mesma instituição fez pesquisas desde abril, e os resultados comparativos mostraram uma diminuição dos índices de Piñera e um pequeno aumento dos de Frei.
Segundo analistas entrevistados pelo G1, a centro-esquerda sofre um desgaste pelos 20 anos no governo e enfrenta ainda um vácuo de novas lideranças, apesar do alto índice de aprovação do governo de Michelle Bachelet. "Ao mesmo tempo em que amam Bachelet, eles estão menos empolgados com a Concertación. Existe uma percepção generalizada de que a Concertación é elitista e não chega ao \'povo\' chileno", explica Peter Siavelis, doutor em filosofia e autor de "The President and Congress in Postauthoritarian Chile" (sem tradução em português).
"O problema é que o sucesso da Concertación foi construído em um modelo político que se baseou em uma série de acordos formais e informais entre elites para subscrever a transição democrática e evitar uma mudança desestabilizadora. Esses acordos excluíram o grande público e levaram a uma diminuição da confiança nos partidos políticos e na democracia em si."
Quer o governo perca ou ganhe as eleições, um fato certo é que as coisas estão mudando na política do Chile. E estão mudando rápido. Logo após ter sido impedido de concorrer nas primarias de sua legenda para definição do candidato presidencial, o jovem Marco Enríquez-Ominami, de 36 anos, saiu do Partido Socialista e levou muitos apoiadores para uma candidatura independente. Apesar de sua criticada falta de experiência na política (ele só exerceu um cargo, como deputado), seu nome desponta nas pesquisas.
A dificuldade da direita em ser maioria
Apesar de estar na frente nas pesquisas e de ter um candidato não diretamente ligado com o pinochetismo, a direita não conseguiu ainda ser maioria. Para Peter Siavelis, esse grupo sempre representou cerca de 30% dos votos no país. "Para ganhar, os partidos da direita precisam circular entre o centro. Apesar da assertiva que sempre se ouve de que o Chile é um país conservador, politicamente ele é um país de centro-esquerda."
Já o professor da Unesp e autor de "Democracia e socialismo: a experiência chilena", Alberto Aggio, acredita que "a direita ainda não se livrou inteiramente da marca deixada por Pinochet". Em uma entrevista ao jornal espanhol "El País", o ex-presidente do Chile Ricardo Lagos afirmou que todos os que estão em volta de Piñera são herdeiros de Pinochet. A frase causou impacto.
Segundo o cientista político Patricio Navia, não são todos em volta do candidato que compartilham do pinochetismo. Mas há muitos. "Até agora, ele parece ter dificuldades para convencer uma maioria de chilenos de que os colaboradores de Pinochet não terão influencia em um possível governo. Se ele conseguir convencer de que será ele que estará no poder, ganhará as eleições no segundo turno."