Uma pesquisa do instituto Gallup divulgada na metade de novembro mostrou que a popularidade do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, está em queda. Segundo o estudo, em agosto deste ano, apenas 47% dos venezuelanos diziam aprovar o desempenho de Chávez, contra 61% no final de 2006 (leia a íntegra da pesquisa, em inglês). Mas, ainda que enfrente oscilações de popularidade, o \'socialismo do século XXI\' de Chávez continua de pé. E, calcados nele, outros governos que surgiram como oposição às administrações da década de 1990 se mantêm. A análise é feita por especialistas e pesquisadores entrevistados pelo G1.

Um exemplo prático é a vitória quase certa do presidente da Bolívia, Evo Morales, nas eleições presidenciais deste domingo (6). Assim como Chávez, Morales fez mudanças na Constituição do país. Também fortaleceu o Executivo, deu prioridade às minorias e mudou a maneira como o Estado explora os recursos naturais da Bolívia.
"Pode ter alguma variação, como qualquer processo histórico, mas grosso modo há de continuidade de ascensão de regimes que eu não classificaria como de esquerda ou socialistas, mas, melhor, como contrários às políticas que prevalecerem nos anos 1990", explica o economista e professor da PUC-SP Pedro Silva Barros, que faz doutorado na USP sobre os governos de Chávez na Venezuela e de Evo Morales na Bolívia.

"Acho que é difícil dizer que Chávez produziu uma alternativa interessante para a América Latina. [...] Acredito que esse modelo de \'socialismo do século XXI\' não está trazendo muitos benefícios e acho que a decadência pode ser vista de maneira mais clara no caso da Venezuela", disse em entrevista ao G1 Michael Shifter, analista e diretor do Projeto Andino do instituto independente Inter-American Dialog. Para ele, os casos da Bolívia e do Equador são menos evidentes, pois os governantes estão há menos tempo no poder e existe mais oposição no Congresso.

Os dados do governo da Venezuela, no entanto, não apontam para uma decadência - pelo menos não na área econômica. De acordo com um relatório do Centro de pesquisa Econômica e Política (CEPR, na sigla em inglês) divulgado no começo deste ano, desde 2003 o PIB real venezuelano quase dobrou, crescendo 94,7% em pouco mais de cinco anos. Ainda segundo o estudo, no mesmo período a taxa de pobreza caiu pela metade e, na última década, o desemprego diminuiu de 11,3% para 7,8%.

Para Mark Weisbrot, co-diretor do CEPR e um dos autores do relatório, o movimento "definitivamente está ficando mais forte". "Esses países veem as mudanças que estão empreendendo como positivas e querem continuar com elas de maneira independente."

 

Questionado sobre a queda de popularidade de Chávez, Weisbrot disse que isso é algo comum em tempos de crise. "A maioria dos governos perdeu popularidade no período de crise, incluindo Obama. É preciso que se considere isso. A popularidade de Chávez sempre variou com a economia. Está diminuindo agora, mas também estava há dois anos."

 

O caso do Chile

Já o Chile não atravessou esse mesmo processo político enfrentado por outros países - leia-se Bolívia, Venezuela e Equador. O especialista Pedro Barros explica: "Os governos da esquerda que chegaram ao poder a partir do Chávez fizeram uma mudança institucional, eles \'refundaram o país\' por meio de uma Constituição que aumentou o poder no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. No Chile, é um processo completamente diferente, o contexto histórico em que a Concertación [coalizão de partidos de centro-esquerda que governa o país desde o fim da era Pinochet] chegou ao poder é bem diferente. A Concertación chegou ao poder num momento de êxito das políticas neoliberais e não em um momento de crise econômica como esses outros países, mas num momento de estabilidade."

Nas próximas eleições para a Presidência do Chile, que ocorrem no dia 13 deste mês, o candidato da direita, Sebastián Piñera, aparece na frente nas pesquisas. Segundo Barros, isso pode significar um "desgaste natural" depois de quase 20 anos no poder.