Ver fracassados os sonhos de participar de uma batucada na praia, degustando pastel de camarão, caipirinha de frutas e cerveja gelada, sob o calor do clima brasileiro e a promessa da concretização de um romance iniciado numa sala de bate-papo da internet foi demais para o turista alemão Heinz Müller, 46 anos. Ontem, domingo, ele completou um mês de internação na ala de psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), após ser rejeitado pela namorada virtual e "morar" duas semanas nas dependências do Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas.
Müller, um piloto de avião aposentado residente em Munique, foi hospitalizado após alterar para agressividade a então cordialidade com que tratava funcionários e frequentadores do aeroporto. Müller desembarcou no Brasil em 2 de outubro, no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Depois, já em Viracopos, seguiu até Indaiatuba, em busca da brasileira que ele dizia se chamar Josiane Alves ou Jéssica Alves. Segundo disse em entrevista ao Terra na época em que estava no aeroporto, sua intenção era agilizar os papéis para um casamento proposto e aceito on-line.
O plano era trocar a fria e comportada Alemanha pelo calor do Brasil e constituir família com a mulher que conhecera pela internet. Arrumaria um emprego e uma casa perto do mar. Antes, porém, pretendia transferir seus bens para um banco brasileiro. Entretanto, segundo disse, ao se apresentar demonstrando a disposição de casar, a moça pediu que ele esquecesse tudo e voltasse para a Alemanha.
Dias depois, o alemão foi localizado por uma assistente social perambulando sem rumo em uma praça. Ao se apresentar como estrangeiro, foi encaminhado a Policia Federal em Viracopos. As autoridades não encontraram irregularidades em seus documentos. Ele estava em situação legal no Brasil até o começo de janeiro do ano que vem, quando expira seu visto. Adormeceu, exausto, em uma poltrona do saguão e lá ficou por 14 dias.
Leaben Brazil
Na entrevista , antes de ser levado a psiquiatria, Müller tentava se fazer entender misturando palavras em alemão, espanhol e português. Cordial e espontâneo, deixou-se fotografar e mostrou sua fragilidade causada pela doença de Parkinson.
Afirmou que estava em Viracopos a espera que a moça fosse buscá-lo. Repetia que tudo era um grande desencontro e que ela chegaria a qualquer momento. Sem dinheiro e sem vontade de retornar à Alemanha, viveu no saguão do aeroporto por 14 dias, carrengando sempre o carrinho de bagagem, um laptop, duas caixas de papelão com roupas, livros e uma pasta ao estilo 007, com documentos, diplomas e fotografias.
"Adoro, amo, beautiful Brasil. As praias calientes, as mujeres, o café black, caipirinha doce. Quiero mein frau, morar in Brazil, San Paolo, Curitiba, Bahia, Rio di Janero", afirmou.
Estabilizado
Segundo a assessoria de imprensa do Hospital das Clínicas, o paciente está estabilizado e passa bem. Não há previsão de alta e ele só será liberado na presença de um familiar. A equipe médica tem mantido contado com o Consulado da Alemanha, que, por sua vez, negou-se a dar informações sobre o assunto.
A Policia Federal informou que Heinz Müller tem visto de permanência no Brasil até 2 de janeiro de 2010. A renovação, que pode ser prorrogada, deve ser pedida pessoalmente. Após expirar o prazo, sem autorização de ficar em território brasileiro, ele terá de pagar uma multa de R$ 895,00 e poderá ser deportado em até uma semana.
Josiane ou Jéssica Alves, que segundo Müller, mora com dois filhos em uma "big casa" em Indaiatuba, nunca foi identificada.