Formado por 14 entidades, o Conselho Municipal de Valores Imobiliários (CMVI) de São Paulo sugeriu ao prefeito Gilberto Kassab (DEM) que reduza, na Planta Genérica de Valores (PGV) em discussão na Câmara Municipal, o valor do metro quadrado atribuído aos imóveis na região da Cracolândia. A PGV pode resultar em aumento de até 60% no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) em 2010. Donos dos poucos imóveis à venda na Cracolândia ouvidos pelo G1 afirmam que houve, sim, valorização do bairro nos últimos anos, por conta das expectativas de investimentos públicos e privados para lá direcionados.

 

Para o Sindicato da Habitação (Secovi) e para a Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), os valores atribuídos ao metro quadrado na Cracolândia na proposta original da PGV estão mais altos do que deveriam. O preço na Rua dos Andradas, que consta do anexo 6 da proposta de lei, por exemplo, varia de R$ 1.612 a R$ 2.230, enquanto o valor mais alto atribuído à Alameda dos Tupiniquins, em Moema, bairro nobre da Zona Sul, é de R$ 1.466.


A atualização da PGV foi aprovada em primeira votação, mas ainda está em tramitação antes da aprovação final. A Câmara Municipal vai realizar uma audiência pública na próxima segunda-feira para discutir o assunto.

Diretor da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp), Luiz Paulo Pompéia, afirma que ocorre na Cracolândia justamente o inverso do que a Prefeitura prevê. Para ele, o valor do metro quadrado foi atribuído equivocadamente.

"O que tenho percebido é exatamente o afastamento de interessados da região por alguns motivos. Primeiro porque os incentivos propostos pela prefeitura para efetivar a reocupação na região não vêm sendo cumpridos como prometido", afirmou. Pompéia diz que conhece duas ou três empresas que recuperaram imóveis e não conseguem entrar por questões burocráticas e outras que fizeram as alterações necessárias, mas não conseguem obter incentivos fiscais.

Para o diretor da Embraesp, há um processo de especulação imobiliária supondo que a Cracolândia vá ser transformada realmente e que venha a ser uma região promissora que tenha ocupação nova, residencial de classe média, em função de uma reestruturação do bairro. No entanto, de acordo com ele, apesar de os donos de imóveis cobrarem preços mais altos, esses negócios não estão se concretizando. Há, no máximo, um encarecimento.

 

O presidente do Sindicato da Habitação (Secovi), João Crestana, afirma que não é adequado subir o valor do metro quadrado com base em expectativas. Ele ironiza a ideia, divulgada por técnicos da prefeitura, de que há uma suposta corrida imobiliária no bairro, ainda afetado pela concentração de usuários de crack. "Lá só tem corrida quando tem batida contra as drogas", afirmou. "Você gostaria de morar onde há um ponto de delinquência?", questiona.

Apesar da polêmica levantada pela revisão da Planta Genérica de Valores, é possível encontrar gente que cobra mais caro por imóveis na Cracolândia e adjacências.

A comerciante Pietra Correa, de 50 anos, afirma que recebeu pelo menos dez propostas pelo apartamento que colocou à venda há cerca de um ano na Rua General Osório. Ela conta que a demora para vender se deve ao fato de que sempre que estava prestes a fechar negócio descobria que com o mesmo dinheiro não conseguiria comprar um imóvel vizinho.

 

Pietra diz que ha cinco anos pagou R$ 40 mil pelo apartamento de 58 metros quadrados, composto de quarto, sala, cozinha e banheiro. Agora, ela pede R$ 100 mil pelo mesmo imóvel e diz que já rejeitou propostas de até R$ 90 mil. "Fico meio apavorada na hora de vender porque aqui está valorizando muito", afirmou.

Pietra conta que um apartamento de quarto e sala na Avenida Rio Branco passou de R$ 38 mil para R$ 110 mil nos últimos cinco anos. "Por aqui está tudo caro. Uma quitinete não sai por menos de R$ 90 mil", diz ela. A afirmação escandaliza o diretor da Embraesp, que considera o valor improvável em qualquer ponto da cidade.

 

A moradora da região conhecida como Cracolândia tem um filho de 14 anos e afirma que nunca teve problemas com os usuários de droga. Vítima de um acidente que afetou sua saúde, ela pretende se aposentar e voltar para Itapetininga, no interior de São Paulo, mas acha que o bairro vai melhorar.

"Eu gosto daqui porque a gente tem tudo à mão. E acho que vai melhorar bastante. Na verdade já está um pouco melhor", afirmou.

O empresário André Beraldino, cuja família administra imóveis há mais de 60 anos na região da Cracolândia, afirma que o aluguel está mais caro. Segundo ele, uma quitinete que antes custava R$ 350 por mês agora já exige pagamento de R$ 500. "Sinceramente, não é um bairro onde eu moraria, mas procura tem", afirmou.

Para ele, os imóveis estão mais valorizados porque as pessoas contam com a inauguração da Estação Casper Líbero do Metrô em 2010. Em frente à imobiliária de André, na Avenida Cásper Líbero, uma empresa reforma o antigo Marian Palace Hotel, cujos apartamentos deverão ser vendidos para uso residencial, processo que os técnicos da prefeitura chamam de retrofit. "De fato tem um ou outro retrofit, mas por enquanto não tem valorização, no máximo um encarecimento", disse o diretor da Embraesp.