O delegado Rui Ferraz Fontes, que investigou o envolvimento da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no assassinato do juiz corregedor Antonio José Machado Dias, 47, disse nesta quarta-feira (11) que Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e Júlio César Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, eram os líderes do grupo e responsáveis por todas as ações dentro do PCC, que, segundo ele, fez "um carnaval" depois da morte do juiz.

"Sem a ordem do líder lá em cima, não tem como alguém de baixo tomar uma ordem por conta própria", disse. Ele afirmou ainda que a investigação foi baseada em dezenas de ligações telefônicas do grupo.

Dias era juiz dos Presídios e da Vara de Execuções Criminais de Presidente Prudente, interior paulista, e foi assassinado com dois tiros no dia 14 de março de 2003, na saída do fórum da cidade. Carambola foi condenado pelo mesmo crime a 29 anos de prisão. Ambos são acusados de serem mandantes do assassinato e estão presos na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, a oeste do Estado.

Além de Fontes, foram interrogadas mais uma testemunha de acusação, o ex-diretor do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) Godofredo Bittencourt, e uma de defesa, o diretor do Centro de Readaptação Penitenciária (CRP) de Presidente Bernardes, Luciano César Orlando.

Ao final do interrogatório, o advogado de Marcola, Roberto Parentone, ironizou o depoimento e afirmou que todas as acusações acabam recaindo sobre seu cliente. "Eu ouvi falar que o apagão foi o Marcos", falou.

Desde as 14h, acontece na 1ª Vara do Júri de São Paulo, no Fórum da Barra Funda, zona oeste, o júri popular de Marcola. O julgamento acontece sem a presença do réu.

Os jurados também já foram sorteados e são seis homens e uma mulher.

Depois de ouvidas as testemunhas, começa a fase de debates, em que o Ministério Público e a defesa apresentam seus argumentos pela condenação ou absolvição do réu. Pode haver réplica e tréplica. Por fim, o júri se reúne e define o veredicto, que será anunciado pelo juiz ainda hoje.

Atraso
Uma mulher foi inicialmente presa por policiais militares que fazem a segurança do júri e depois retirada do plenário e encaminhada para a delegacia, o que atrasou a sessão em 40 minutos.

Segundo o juiz Alberto Anderson, que preside o júri, ela disse que "não estava fazendo nada demais, mas foi constatado que ela estava fotografando e filmando" o julgamento e os jurados.

A mulher foi identificada pelo promotor do caso, Carlos Roberto Talarico, que avisou o juiz. "Vocês me viram como um leão, pulando numa moça que estava quebrando todo o esquema de segurança preparado para esse júri. Tomara que seja apenas uma estudante querendo guardar uma lembrança desse júri", declarou aos jurados durante os debates da acusação.

Segundo ele, outras medidas de segurança, como sorteio de jurados por número e não por nome e a escolta especial do júri na volta para casa, foram adotadas.

 


Os réus seriam julgados juntos no dia 1º de outubro, mas o advogado de Marcola deixou o plenário do Tribunal do Júri da Barra Funda minutos após o início da sessão alegando cerceamento de defesa. O advogado Roberto Parentoni questionou a negativa do juiz Alberto Anderson a pedidos para adiar o julgamento.

Com o adiamento do júri de Marcola, Carambola foi condenado em um julgamento que durou mais de 14 horas. Quase sete anos depois do crime, seis das sete pessoas do júri decidiram que ele era culpado pelo assassinato, cometido com motivo torpe e com o uso de emboscada, qualificadoras que aumentaram a pena. A defesa recorreu da sentença.

Cerca de duas semanas após o assassinato, a polícia concluiu que a ordem partiu de Marcola, tido como principal líder do PCC, de dentro da Penitenciária 1 de Avaré (262 km de São Paulo). Três dias depois da morte, um bilhete foi apreendido na prisão.

A mensagem dizia: "se realmente foi isso, hoje virá algum salve para você. A caminhada é a seguinte: o Machado foi nesta. Passou em todo o jornal lá da cidade e de São Paulo. Esse salve veio hoje pelo pessoal. Foi a Fia [suposta mensageira do PCC] que passou. Acredito eu que é a caminhada do câncer, pois a operação que faltava foi marcada e o paciente operado. Ela pediu para dizer que tinham matado o Machado".

Marcola nega ter ligação com o homicídio. Três de outros quatro acusados já foram condenados pelo crime. João Carlos Rangel Luisi, o Jonny, pegou 19 anos de reclusão em regime fechado; Reinaldo Teixeira dos Santos, o Funchal, 30 anos de reclusão em regime fechado e Ronaldo Dias, o Chocolate, 16 anos e oito meses de prisão. Adilson Daghia, o Ferrugem, ainda não foi julgado.

Em maio do ano passado, o juiz Valter Alexandre Mena, da 3ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, condenou o Estado a indenizar os dois filhos do juiz, em 150 salários mínimos cada, sustentando que o governo foi "inerte" e falhou no dever de proteger o magistrado. A Procuradoria Geral do Estado recorreu.