A violência entre jovens casais virou tema de uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em dez capitais brasileiras, com 3,2 mil adolescentes entre 15 e 19 anos. O Fantástico, programa exibido pela TV Globo, no último domingo (11), teve acesso à integra dessa pesquisa, que revela números impressionantes: nove em cada dez jovens namorados já sofreram ou praticaram algum tipo de violência, que vai do xingamento à agressão física, passando pelo sexo forçado e a humilhação pública, via internet.
No começo, mil maravilhas, apelidos carinhosos, atenção total. "Esperamos tanta coisa", diz Francisco da Silva, 16 anos.
Mas a paixão pode se transformar, abrindo espaço para agressões. "É complicado, porque na nossa idade os hormônios estão à flor da pele. Nervosismo é o que mais temos", diz Marina dos Santos, 18 anos.
Adolescente foi espancada pelo namorado
Em Pernambuco, aos 13 anos de idade, uma menina foi espancada pelo namorado, seis anos mais velho. "Ele ficava dando murro em mim, tapa. Eu pedia a ele para parar, mas ele não parava", lembra.
"Percebemos velhas e novas formas de violência, que vêm no bojo de uso de novas tecnologias que os adolescentes dominam muito bem", revela a pesquisadora da Fiocruz Kathie Njaine.
No interior de São Paulo, uma jovem tinha 17 anos quando experimentou o terror ao ver fotos nuas dela, tiradas pelo ex-namorado, circulando na internet. "Passei por preconceito, por morar numa cidade pequena. Eu não conseguia arranjar emprego durante um bom tempo na cidade. Fica as marcas do que ele me fez até hoje", diz ela.
Meninas também são agressivas
A violência não escolhe classe social nem sexo. O estudo da Fiocruz revela um comportamento que chamou bastante a atenção dos pesquisadores: as meninas são tão ou mais agressivas que os meninos. Elas provocam ciúmes, xingam, humilham os garotos.
"Percebemos muitas meninas praticando violência física, através de tapas, empurrões. Os garotos disseram que se sentem muito incomodados ao serem expostos e, às vezes, depreciados pelas meninas", diz Kathie Njaine.
Uma adolescente disse que tem o temperamento forte e perde a cabeça fácil. "Já dei um tapa na cara de um porque eu estava muito nervosa", disse.
A pesquisa mostra ainda que 41% dos jovens já usaram álcool, maconha ou cocaína. A primeira relação sexual aconteceu, em média, aos 14 anos de idade, e 43% admitiram não usar camisinha sempre. A pouca idade e a falta de experiência se refletem na qualidade dos relacionamentos.
"Para a pessoa poder se defender, ela agride, como se a melhor defesa fosse o ataque. Ela pensa assim e, infelizmente, esses índices estão explodindo hoje", avalia o psiquiatra Maurício Souza Lima, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Em São Paulo, cansada de brigar um fim de semana sim, outro não, uma adolescente terminou o namoro. "Começava em uma discussãozinha, com um querendo falar mais alto que o outro, um querendo ter razão. Ele me xingava e gritava comigo na rua", lembra.
O namorado procurou ajuda de um psicólogo. O jovem casal conversou muito e hoje eles estão juntos de novo. Agora, sem violência.
"Faz um bom tempo que a gente não briga, graças a Deus", conta a adolescente, emocionada. "Eu gosto muito dele, e é legal saber que ele mudou por mim. Isso inspira muito, dá vontade de ficar com a pessoa, de amar a pessoa".
"Temos que fazer alguma coisa e tentar reverter. E a única forma é o dialogo. A família precisa estar envolvida nesse processo", aconselha Maurício Souza Lima.