Com apenas 1 ano e cinco meses, o garoto Valdir Andrade Ferreira Júnior ficou internado durante 20 dias no Hospital Geral do Estado (HGE), em Salvador, depois de ter virado uma panela de água fervente sobre si mesmo na área de serviço de sua casa. “Ele estava brincando na varanda e eu tinha colocado a panela em cima da pia. Me virei por um instante e só ouvi os gritos”, lembra a mãe do garoto, a empresária Antônia Oliveira Ferreira. Hoje com nove anos, Valdir traz apenas algumas cicatrizes como lembranças do acidente.


O caso de Valdir não é único. De acordo com dados mais recentes do Ministério da Saúde, mais de 4 mil crianças morreram e outras 100 mil foram hospitalizadas em 2007 em decorrência de acidentes, entre quedas, queimaduras, afogamentos, sufocações e acidentes de trânsito. Grande parte das ocorrências aconteceram dentro de casa. Pesquisas feitas pela Criança Segura mostram que pelo menos 90% destas hospitalizações poderiam ser evitadas apenas com medidas preventivas.


Para chamar a atenção para o problema, a ONG Criança Segura promove neste domingo, 30, o Dia da Prevenção de Acidentes com Crianças. Em Salvador, o evento será organizado pela Associação Bahiana de Cirurgia Pediátrica (CIPE-BA) e acontece na Avenida Oceânica, perto do Farol da Barra (Rua de Lazer). O objetivo é alertar os pais para medidas simples que podem ser adotadas em todos os cômodos da casa e também nas áreas externas, como quintais, lajes e piscinas para diminuir os riscos aos quais as crianças estão expostas.


De acordo com a médica Maria do Socorro Mendonça, presidente da CIPE-BA e representante da Criança Segura na Bahia, a proposta do evento é mesmo a conscientização. "Será um dia de orientação para pais e familiares sobre os cuidados que devem ser tomados, não só com relação a acidentes de trânsito, mas também aos perigos domésticos", afirma.


Para minimizar os riscos dentro de casa, a pediatra Márcia Barreto, diretora da Sociedade Bahiana de Pediatria (SOBAPE), destaca a importância da criação da “casa segura”, com preocupação especial com a cozinha, onde acontecem mais de 30% dos acidentes com crianças. Segundo a médica, atitudes básicas como virar os cabos das panelas para dentro do fogão, guardar medicamentos, materais de limpeza e objetos cortantes em armários e gavetas fechados, além de utilizar redes de proteção em janelas e varandas, podem fazer a diferença nos cuidados com os pequenos. “Quando a pessoa fecha [a cozinha], já diminui muito a possibilidade de a criança se machucar”, destaca.


Além da cozinha, Márcia aponta também os perigos presentes no banheiro, como o risco de semi-afogamento em banheiras e bacias e a possibilidade de intoxicação devido à ingestão de água contaminada, remédios ou produtos de higiene e beleza. "As crianças ingerem por curiosidade com aqueles líquidos e embalagens coloridos", explica. Em todo o ambiente doméstico, as crianças estão suscetíveis ainda a ferimentos com objetos cortantes, choques elétricos, sufocações e engasgamentos.


Acima de tudo, a pediatra aponta que a principal forma de prevenção é mesmo a atenção dos pais ou responsáveis, sempre fundamental para evitar a ocorrência de acidentes. "A companhia do adulto é imprescindível", comenta. Márcia Barreto destaca os riscos de deixar um irmão mais velho cuidando da criança menor. "Jamais a criança deve ser deixada sozinha em casa, muito menos tomando conta de outra", opina.


De acordo com a psicóloga Ângela Luna, a criança precisa do suporte adulto pelo menos até os sete anos. A partir daí, ela explica que a relação de confiança e diálogo estabelecida entre pais e filhos é que determina quando e por quanto tempo eles podem ser deixados sozinhos. “Claro que é arriscado, mas se os pais informam os riscos, ensinam a criança a lidar com eles e a construir sua autonomia, é possível ir experimentando as situações aos poucos”, recomenda. Ela alerta, no entanto, que além do diálogo é preciso estabelecer limites. “Se o adulto diz não pode, a criança precisa aprender a obedecer”, destaca.


Mesmo com precaução e orientação, no entanto, acidentes sempre podem acontecer e na maior parte das vezes devem ser encarados com naturalidade. “Faz parte do processo de crescimento da criança”, opina a psicóloga. Segundo ela, nessas situações, o mais importante é o adulto não perder a calma e sempre levar a criança para as emergências de hospitais de referência, pois muitas vezes os pais não têm como avaliar corretamente as consequências de um acidente. “Cada tipo de trauma exige uma conduta diferente e apenas o médico pode avaliar a situação”, explica a pediatra Márcia Barreto.