O presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, propôs nesta quarta-feira renunciar ao cargo com a condição de que o presidente deposto, Manuel Zelaya, não seja restituído. Os apoiadores de Zelaya, contudo, anunciaram uma paralisação de dois dias, nestas quinta e sexta-feira, em um manifesto pela volta do presidente eleito.
Organizações sociais hondurenhas convocaram a ocupação de "pontos estratégicos" do país, além de protestos nas ruas para exigir o retorno de Zelaya ao poder.
O líder campesino dos protestos, Rafael Alegría, afirmou, citado pelo jornal hondurenho "Hondudiário" que a paralisação inclui bloqueios nas principais estradas do país. Ele fez ainda um chamado para que a população não circule nestes dois dias para "não causar inconvenientes e contribuir para a institucionalidade do país."
Alegría aguarda ainda a decisão dos funcionários da área de saúde que votam ainda hoje a participação na paralisação.
"A paralisação será feita de forma pacífica e esperamos não ter repressão, porque não nos quiseram escutar de outra forma e quem tem a solução ao problema é Roberto Micheletti", disse.
O governo interino decretou na madrugada desta quinta-feira um novo toque de recolher entre as 0h e 5h de quinta-feira (entre 3h e 8h no horário de Brasília) para tentar conter a paralisação.
A medida foi anunciada em mensagem divulgada por rádio e televisão. Ela proíbe o trânsito de pessoas e veículos à noite, repetindo o que ocorreu entre 28 de junho, quando Zelaya foi derrubado, até o último dia 12.
Segundo a Presidência, a decisão foi adotada "em vista das contínuas e abertas ameaças por parte de grupos que buscam provocar distúrbios e desordem".
Na Guatemala, o presidente deposto afirmou na terça-feira (14) que em breve voltará a seu país para terminar seu mandato presidencial, que chega ao fim em 27 de janeiro de 2010.
No comunicado, o governo interino pede a compreensão da população hondurenha e que os cidadãos acatem a disposição adotada com o objetivo de "proteger a segurança das pessoas e seus bens e garantir a ordem e a paz social".
Renúncia
Micheletti aceitou nesta quarta-feira a possibilidade de renunciar. "Se em algum momento a decisão [de renunciar] favorecer a paz e a tranquilidade no país, sem o retorno, que conste, sem o retorno do ex-presidente Zelaya, estou disposto a fazê-lo", disse a jornalistas.
Ele afirmou que a sua oferta de renúncia foi apresentado por uma delegação hondurenha nos Estados Unidos, presumivelmente para o governo americano. Não ficou claro se o governo dos EUA recebeu a proposta para pôr fim à instabilidade no país.
Micheletti foi designado para a Presidência pelo Congresso Nacional, após o a derrubada de Zelaya pelo Exército, com apoio da Suprema Corte e do Parlamento, em 28 de junho passado. Desde então, seu governo, que não foi reconhecido por nenhum país, sofre com a rejeição internacional, e se apoia em uma aparente coesão entre os poderes no país para manter-se no poder até o início do próximo ano, quando deve assumir o presidente eleito nas eleições previstas para novembro.
Zelaya foi deposto na madrugada do dia em que pretendia realizar a votação sobre mudanças constitucionais que, segundo os opositores, tinha como objetivo eliminar a proibição à reeleição. O presidente deposto nega essa intenção, descartando ter sido enquadrado de forma adequada à pena de perda de mandato prevista na Constituição hondurenha para quem tentar remover essa barreira.
Embora rejeita o retorno de Zelaya, o governo interino negocia com o presidente deposto em reuniões mediadas pelo presidente da Costa Rica, Oscar Árias. A continuidade desses encontros foi confirmada nesta quarta-feira, depois de ter sido colocada em dúvida nesta terça-feira por Zelaya, que convocou à "insurreição" contra o novo governo o povo hondurenho --que segundo pesquisas está dividido em relação à sua deposição.
Segundo o governo costarriquenho, delegações representando Zelaya e o presidente interino participarão da segunda reunião de negociação neste sábado, em busca de uma solução para a crise política.