Representantes de governo, parlamentares e parentes de desaparecidos políticos criticaram a decisão do ministro da Defesa, Nelson Jobim, de nomear o comandante do Exército, general Enzo Peri, para coordenar o grupo que fará buscas de ossadas e identificação de corpos de militantes de esquerda mortos na Guerrilha do Araguaia.

O presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos, Marco Antônio Barbosa, condenou a escolha e disse que Jobim não consultou a Secretaria Especial de Direitos Humanos. Para ele, o ministro militarizou o grupo.

"A portaria conferiu um caráter militar à nova expedição ao Araguaia, ao determinar que a execução dos trabalhos (...) sejam entregues a um general de brigada, cujo entendimento sobre o episódio Guerrilha do Araguaia é (...) oposto aos sentimentos (...) dos familiares desses mortos e desaparecidos políticos", afirmou, em nota.

O ministro da Secretaria de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, concorda com a crítica. Para ele, Jobim "atropelou a lei".

Em nota, um grupo de parentes de desaparecidos repudiou o grupo de trabalho. "Rejeitamos o caráter militar da expedição que reabrirá feridas que até hoje não foram cicatrizadas, além de atemorizar e afastar eventuais colaboradores voluntários civis", diz o documento, assinado por Suzana Lisbôa, Iara Xavier, Amparo Araújo, Criméia de Almeida, Laura Petit e Lorena Barroso.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Luiz Couto (PT-PB), criticou a iniciativa da Defesa. Jobim evitou polemizar, mas apontou falhas nas 13 expedições ao Araguaia realizadas até hoje, todas acompanhadas pela Comissão de Mortos e Desaparecidos. Foram recolhidas 14 ossadas. "Há relatos que apontam para a necessidade de que as futuras expedições ao local sejam realizadas com adoção de metodologia científica adequada e com os meios logísticos necessários", diz nota do Ministério.

O Comando do Exército fez comentário sucinto sobre a revelação do major da reserva Sebastião Curió de que 41 vítimas do Araguaia foram executadas depois de rendidas: "O Exército considera que as declarações do senhor Sebastião Curió são de caráter pessoal e de inteira responsabilidade do mesmo".