Imagens feitas por passageiros que sobreviveram a uma forte turbulência mostram um cenário que lembra um enigma que completa neste domingo (7) uma semana: o que teria derrubado o voo 447? Acompanhe a sequência de eventos que levaram à tragédia. No Rio de janeiro, às 19h, o Airbus A-330 da Air France se prepara para decolar. Na parte da frente estão os passageiros da primeira classe e da executiva. Mais atrás, a econômica.
Às 19h30, o avião com capacidade para 219 passageiros decola com apenas três lugares vazios. A tripulação é composta por três pilotos e nove comissários com destino à Paris. “Subindo, ele entrou na área alta do Atlântico, onde não tem nem nuvem. Foi voo muito tranquilo, mas muito tranquilo até uma determinada região”, explicou o professor de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), Augusto José Pereira Filho.
O comandante do Airbus já sabia que enfrentaria uma forte tempestade pelo caminho. José Mauro Lins de Oliveira é piloto brasileiro, voa há 17 anos, e tem experiência com o mesmo tipo de aeronave.
“Nós recebemos toda uma programação metereológica de toda a rota, em função disto você programa junto com a tripulação determinadas ações durante o vôo”, explica o piloto José Mauro Lins de Oliveira.
Às 21h, a situação sobre o Atlântico se agrava.
“Essa tempestade foi alimentando outras tempestades que formaram uma região de muita tempestade profunda”, explicou o professor Augusto José Pereira Filho.
O Centro de Controle da Aeronáutica Cindacta 3 faz o acompanhamento meteorológico da região.
“Nós temos um sistema que permite ao piloto se comunicar com esse centro metereológico e perguntar sobre modificações ou informações que sejam necessárias para que ele possa fazer a correção do seu voo”, contou o tenente-brigadeiro da Aeronáutica, Ramon Borges Cardoso.
Dentro do avião, os pilotos também tinham um radar meteorológico, como explica dentro de um simulador de Airbus 330 o instrutor Luiz Almeida, piloto há 24 anos. “Você já decola com o radar ligado e faz o voo inteiro com o radar ligado”.
Às 22h30, o piloto faz o último contato de voz com o controle aéreo brasileiro informando sua posição. Às 23h, o Airbus envia uma mensagem eletrônica para a companhia aérea.
“Ele apertou uma tecla e abriu uma página transmitindo à empresa que ele ia passar por uma área de instabilidade”, explicou Luiz Almeida.
“Ele não foi pego de surpresa. É impossível passar? Não é impossível. É recomendável? Não é”, disse o piloto José Mauro Lins de Oliveira.
Pilotos ouvidos pelo Fantástico afirmam que, pelo radar do avião, seria possível enxergar brechas entre os núcleos do temporal.
“Como qualquer piloto, eu ia desviar, sem dúvida nenhuma”, disse Luiz.
Com o plano de voo do Air France 447 e as mensagens enviadas automaticamente do computador de bordo para o centro de controle da companhia aérea, uma equipe do Fantástico entrou em um simulador de Airbus e reproduziu minuto a minuto o que aconteceu com o avião até o momento em que ele desapareceu no oceano.
Às 23h10, o avião informa problemas no leme e o desligamento do piloto automático. “A aeronave começa a perder altitude”, aponta Luiz.
Mais uma mensagem: os sistemas de proteção da aeronave param de funcionar. “Ele já está me dando o primeiro alarme aqui”, continua Luiz.
O avião perde o sistema anticolisão, o acelerador automático e telas com dados do voo. “Agora ele está subindo sem eu comandar. Está fazendo uma curva do lado direito”, explica Luiz.
Os computadores de navegação apagam. “Você perdeu seu lado do copiloto”, adicionou Luiz.
Em um minuto o avião vai desaparecer começar a cair. Os computadores principais entram em colapso.
“Com essa perda, nós começamos a cair 2,7 mil pés por minuto. A aeronave está botando o nariz para baixo”, explicou Luiz.
Às 23h14, a última mensagem informa perda de pressão da cabine, o que poderia indicar queda livre. “Em uma velocidade muito alta, ela começa a desintegrar. Aumentando a velocidade, ele vai embora até o chão”, concluiu Luiz.
“O que mais me deixa perplexo foi ele não ter tipo tempo de ter pedido socorro e de ter chamado a atenção de ninguém”, lamenta o piloto José Mauro.
As 24 mensagens, eletrônicas e automáticas, foram enviadas em apenas quatro minutos. O engenheiro mecânico e piloto Jefferson Fragoso é investigador de acidentes aéreos e tem uma hipótese. Pós-graduado em uma das principais escolas da Aeronáutica do país e com dez anos de experiência com projetos de aviões, Jefferson acredita que, em vez de uma série de panes sucessivas antes da queda, o avião pode ter sofrido apenas um grande colapso.
“Se houver uma fratura estrutural no nível de voo que eles estava, entre 34 e 35 mil pés, você demoraria exatamente quatro minutos pra chegar ao solo. Durante este período, todos os alarmes estão tocando, toda possível informação de falha está sendo mandada. Aconteceu ali em cima aqueles quatro minutos? Pelo o que a gente está vendo de evidência, não. Durante a queda isto foi acontecendo”, explica o engenheiro mecânico e piloto Jefferson Fragoso
Uma possível queda livre em quatro minutos explicaria também por que o piloto não pediu socorro.
“Se ele está realmente com tempo para dar uma mensagem de emergência, ele com certeza, no mínimo, diria: ‘Mayday, mayday, estou caindo’”, completou Jefferson Fragoso.