A presença de manchas de óleo, identificadas por aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) numa extensão de 20km, afastou ontem a hipótese de explosão no ar do Airbus A330 da Air France, que caiu no litoral brasileiro com 228 pessoas a bordo, a caminho de Paris. A informação é do ministro da Defesa, Nelson Jobim.

Com isso, fica mais remota a suspeita de a aeronave ter sido alvo de ato terrorista, como veicularam alguns meios de comunicação franceses.

Mas o ministro também deu uma notícia desalentadora para os familiares das vítimas do acidente. Ele descartou a chance de encontrar sobreviventes e disse que até mesmo o resgate de corpos será praticamente impossível.

Os que tiveram o abdome rompido na queda permanecerão nas profundezas do oceano. Os que tiverem o abdome intacto poderão emergir, num prazo de dois a três dias. "Mas lembremos que o acidente foi na Costa do Recife", observou Jobim, numa referência à grande incidência de tubarões na região.

Ontem, os aviões da FAB identificaram duas trilhas principais de destroços, distantes 136km uma da outra. Uma mais próxima de Fernando de Noronha e outra mais perto das ilhas de São Pedro e São Paulo.

A operação montada pelo governo brasileiro para localização de corpos e recuperação de objetos que possam ajudar nas investigações vai traçar um raio de 200 quilômetros entre as duas trilhas para concentrar as buscas, que foram encerradas ao cair da noite de ontem e serão retomadas hoje.

Um dos objetivos centrais das buscas é localizar a caixa-preta da aeronave, juntamente com a parte principal. Jobim ressaltou "a importância da caixa-preta para esclarecimento das causas da queda do avião" e análise dos momentos finais vividos pela tripulação, mas destacou que o Brasil não tem recursos técnicos, submarinos ou sonares potentes o suficiente para localizar a peça, que pode estar numa profundidade de 2 a 3 mil metros de profundidade. A área de busca fica a uma distância de cerca de 1.200km do Recife, o equivalente ao trajeto entre Rio e Brasília.

Noronha - Os destroços serão removidos inicialmente para uma base em Fernando de Noronha, a pouco mais de 200km da região em que provavelmente caiu o avião. De lá o material será levado para o Recife.

Jobim informou que tudo que interessar à investigação das causas do acidente, incluindo a caixa-preta, será entregue ao governo francês. Entre os destroços encontrados nas trilhas estão uma peça metálica de 7 metros de diâmetro, provavelmente parte da asa, dez objetos de tamanhos diversos e alguns de metal.

A Aeronáutica e a Marinha brasileiras informaram que o espaçamento dos objetos encontrados no mar vai dizer se o Airbus despencou verticalmente, se a aeronave se espatifou apenas ao bater na água ou se ela se desintegrou no ar enquanto caía. Segundo as autoridades brasileiras que participam da investigação do acidente, nenhuma hipótese está totalmente afastada, com exceção de atentado.

Na análise da posição dos objetos, engenheiros e técnicos vão levar em conta a velocidade e a direção das correntes marinhas para definir se eles caíram juntos ou fragmentados em pontos diferentes. Outro grupo vai verificar as condições meteorológicas em detalhes na ocasião do acidente, quando a região enfrentava tempestade de grandes proporções, com raios e granizo.

Os dados climáticos do momento do acidente foram requisitados no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e em outras instituições meteorológicas do Brasil e do exterior. Os destroços e vestígios, como amostras de óleo, estão sendo recolhidos com cuidado redobrado para preservar as características que possam esclarecer o acidente.