A calmaria que historicamente definia a Rua São Pedro, no bairro de Garça Torta, em Maceió, foi substituída pelo som estridente de britadeiras, pelo tráfego ostensivo de caminhões e pelo temor constante de moradores. No local, a instalação de um empreendimento imobiliário de 20 andares mais cobertura, o Edifício Dom Pietro, transformou uma via estreita de uso residencial e de acesso escolar em um cenário de tensão contínua.
A obra, erguida sobre uma faixa sensível de areial e restinga no litoral norte, escancara o avanço desregulado do setor da construção civil sobre áreas de alta vulnerabilidade ambiental e reabre feridas históricas sobre a omissão na fiscalização urbanística da capital.
Para quem vive ao lado do canteiro de obras, a rotina tornou-se insustentável. A moradora Beth Krisam, que reside em um condomínio vizinho e sofre os impactos diretos da intervenção, relata que os transtornos começaram logo na fase inicial com o uso agressivo de maquinário pesado.
"A obra é encostadinha nas casas aqui do condomínio. No início do processo, o uso de britadeiras fez os sobrados tremerem, a ponto de exigirmos laudo técnico para garantir a segurança das estruturas", relata.
O cotidiano da vizinhança passou a ser ritmado por uma sucessão de violações e incômodos físicos e ambientais. "No dia a dia é muito barulho, com equipamentos antigos e mais barulhentos, muito pó por causa do vento forte e um ruído muito forte que chega a ultrapassar 100 decibéis, além do cheiro muito forte de combustível queimado", detalha Beth.
A moradora também denuncia o impacto na mobilidade urbana e na integridade do espaço público: "A outra questão é o trânsito de máquinas pesadas na rua, que é estreita, de uso local, com muito barulho, já quebraram pedaços de calçadas e dificultam o vai e vem de moradores e dos ônibus escolares. A obstrução das calçadas na obra é total, com estreitamento, piso todo quebrado e colocação de placas. Na casa em frente, que é deles, colocaram um contêiner para metralha, e os moradores que lutem com os carros e máquinas na rua".
Segundo ela, o desrespeito aos horários de sossego público também revolta a comunidade. "Tivemos problemas com não respeitarem horário e feriados, e fizemos tanta pressão que ajustaram. Mas chegamos a ter máquinas pesadas operando à meia-noite e às quatro da madrugada", desabafa a moradora, acrescentando um panorama sintomático do desmatamento: "Primeiro foi o desmatamento total; de verde, só sobrou a placa do IMA".
A denúncia
A mobilização ganhou repercussão pública após o professor e pesquisador Dilson Ferreira publicar registros e denúncias em suas redes sociais. No material compartilhado, o especialista flagrou a movimentação agressiva de escavadeiras de grande porte operando rente a calçadas e muros residenciais, questionando duramente a omissão dos órgãos de controle e dos representantes políticos diante do desmonte do ecossistema costeiro.
"O litoral norte e ruas como essa não comportam este tipo de empreendimento. Trata-se de uma área de areial e restinga com alta vulnerabilidade ambiental", advertiu o professor Dilson Ferreira, cobrando uma reação enérgica da população e dos conselhos de classe frente à flexibilização de normas urbanísticas.
Para o especialista, se o Plano Diretor for aprovado nos moldes atuais, esse tipo de agressão e de sufocamento das comunidades litorâneas se tornará uma rotina na capital.
Um problema crônico
O drama vivido em Garça Torta não é um caso isolado, tampouco uma novidade no jornalismo de Maceió. O CadaMinuto vem monitorando e denunciando sistematicamente, há anos, a pressão da especulação imobiliária e o desrespeito às diretrizes ambientais no litoral norte.
Em reportagem publicada em novembro de 2024 ("Plano diretor defasado e especulação imobiliária colocam o litoral norte de Maceió em risco"), já se alertava como a lentidão na atualização das leis de uso do solo e o apetite do capital imobiliário ameaçavam a integridade paisagística e ecológica de bairros costeiros inteiros, empurrando comunidades tradicionais para a margem do planejamento urbano.
Meses depois, em junho de 2026, nova matéria de fôlego do portal ("A gente não sabe o que vai ser do futuro: expansão imobiliária coloca litoral norte no centro da disputa urbanística") esmiuçou o clima de incerteza e a revolta de moradores acuados pelo avanço de grandes empreendimentos sem a devida contrapartida de infraestrutura.
O padrão que agora se repete na Rua São Pedro ecoa o drama enfrentado por outras regiões da capital, a exemplo do isolamento e dos transtornos crônicos vivenciados nos Flexais ao longo dos últimos quatro anos.
Moradores apontam que diversas ruas de Maceió sofrem diariamente com construtoras que tratam vias públicas e calçadas como extensões de seus canteiros, gerando poluição sonora e atmosférica desregulada, lançando água de obra diretamente nas galerias de águas pluviais e atropelando o direito básico ao sossego e à dignidade urbana.
Articulação comunitária e cobrança por fiscalização
A resistência em Garça Torta conta com o suporte técnico e político de coletivos como o Observatório Ambiental, grupo que atua na preservação do litoral norte e tem marcado presença em reuniões, audiências públicas e em todas as etapas e oficinas de atualização do Plano Diretor e do Projeto Orla (PGI).
Enquanto a comunidade se organiza para frear o avanço da obra e exigir o rigor da lei, a cobrança recae diretamente sobre o Instituto de Planejamento Urbano (IPLAM), os conselhos profissionais de arquitetura e engenharia e os órgãos fiscalizadores.
O CadaMinuto formalizou pedido de esclarecimento junto à assessoria de comunicação do Instituto de Planejamento Urbano (IPLAM) para verificar a legalidade do licenciamento ambiental e urbanístico da edificação de 20 andares na faixa de restinga, bem como os autos de fiscalização emitidos em relação aos danos à infraestrutura pública da Rua São Pedro.
O espaço segue aberto para a manifestação oficial dos órgãos de controle e da empresa responsável pelo empreendimento.