A crescente preocupação dos brasileiros com a segurança no emprego e as perspectivas profissionais tem afetado a disposição das famílias para consumir. Em outubro, a confiança nas oportunidades de trabalho caiu pelo sexto mês consecutivo, enquanto a intenção de consumo registrou a terceira retração mensal seguida e atingiu o menor nível desde janeiro. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), todos os componentes do indicador apresentaram queda, incluindo a disposição para comprar móveis e eletrodomésticos, que recuou 1,8%. A cautela atingiu famílias de diferentes faixas de renda, mesmo diante de um mercado de trabalho que ainda apresenta indicadores favoráveis.

A Intenção de Consumo das Famílias (ICF) caiu 0,8% na comparação com setembro, já descontados os efeitos sazonais. O indicador, mensurado mensalmente pela CNC, alcançou 103,6 pontos, o menor nível desde janeiro deste ano, quando também marcou 103,6 pontos.

O resultado reflete a cautela crescente dos consumidores diante das perspectivas para o mercado de trabalho e das condições atuais de consumo. Houve um recuo mensal em todos os componentes do índice, com destaque para o Momento para Compra de Duráveis, que caiu 1,8%, na terceira retração consecutiva e na mais intensa desde o início desse movimento. A Renda Atual teve a menor queda do mês, de 0,3%, mas acumulou o quinto resultado mensal negativo consecutivo.

O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, avalia que o período é positivo para o comércio, mas que o bolso do consumidor poderia estar mais bem preparado do que está, considerando os últimos meses e resultados de outubro.

“O mês do Dia das Crianças é uma espécie de prévia da Black Friday e confraternizações de fim de ano, que mobilizam consumidores em todo o País. Ainda que a massa salarial e a taxa de ocupação tenham estabilizado em bons patamares, há incertezas no horizonte do consumidor, tanto internas quanto externas”, avalia.

“Parcelas de dívidas e contas em atraso são o outro lado desta equação que ainda se inclina para a redução no poder de compra do brasileiro”, complementa Tadros.

Apesar da perda de fôlego no curto prazo, o indicador geral avançou 2,2% em relação a outubro de 2025. O destaque positivo na comparação anual foi o Momento para Compra de Duráveis, com alta de 14,0%. Desde novembro do ano passado, a percepção mais favorável sobre a aquisição desses produtos tem sido beneficiada pela menor pressão inflacionária sobre os bens duráveis. Em setembro, a inflação acumulada em 12 meses desse grupo foi de 1,12%, abaixo da variação de 4,58% registrada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

A redução mensal do indicador, entretanto, sinaliza que as condições atuais das famílias começam a pesar mais nas decisões de compra, mesmo com a evolução mais favorável dos preços desses produtos.

Mercado de trabalho inspira cautela

Embora o mercado de trabalho continue apresentando condições favoráveis, com taxa de desocupação próxima do menor patamar histórico e saldo líquido positivo de criação de postos de trabalho, as expectativas dos consumidores demonstram maior cautela.

O componente Emprego Atual recuou 0,7% em outubro, registrando a primeira queda mensal desde abril, mas permaneceu 1,5% acima do resultado de um ano antes. Já a Perspectiva Profissional caiu 0,6% no mês, acumulando a sexta retração mensal consecutiva. Na comparação anual, o indicador recuou 7,7%, a maior queda entre os componentes da ICF.

A percepção sobre a segurança no emprego também apresentou sinais de enfraquecimento. Embora 42,7% das famílias considerem o momento mais seguro para conseguir ou manter uma ocupação, esse percentual diminuiu em relação aos levantamentos anteriores. Na avaliação da Perspectiva Profissional, 48,0% dos consumidores mantêm uma percepção positiva, o menor percentual desde setembro de 2022, quando o índice registrou 47,1%.

Consumo atual recua, mas permanece acima do nível de 2025

O componente Nível de Consumo Atual atingiu 90,1 pontos, o menor resultado desde dezembro de 2025. O indicador vem diminuindo gradualmente há quatro meses e apresentou queda mensal de 1,3% em outubro.

A piora na percepção sobre o mercado de trabalho e nas condições para compras a prazo contribuiu para esse movimento. A Perspectiva de Consumo também seguiu em trajetória de queda na comparação mensal. Apesar disso, ambos os indicadores permaneceram acima dos níveis registrados no mesmo período do ano passado, apontando um cenário relativamente mais favorável do que em 2025, embora marcado por desafios no curto prazo.

Intenção de consumo cai nas duas faixas de renda

A retração da intenção de consumo foi semelhante entre as famílias de diferentes faixas de renda. Entre aquelas com rendimento de até dez salários mínimos, a ICF caiu 0,8% no mês, indo para 101,4 pontos. No grupo com renda superior a dez salários mínimos, a redução também foi de 0,8%, e o indicador chegou a 115,4 pontos.

Nas duas faixas, o Momento para Compra de Duráveis foi o principal destaque negativo. O componente recuou 1,7% entre as famílias de menor renda e 2,0% entre as de maior renda.

A percepção sobre a renda apresentou comportamentos distintos. Entre as famílias com rendimento de até dez salários mínimos, a Renda Atual avançou 1,9% em relação a outubro de 2025, no sexto resultado positivo consecutivo nessa comparação. Já entre as famílias de maior renda, o componente caiu 1,2% na comparação anual, mantendo a tendência negativa observada nos três meses anteriores.

As perspectivas de consumo, por sua vez, permaneceram positivas na comparação anual nos dois grupos, com alta de 2,9% entre as famílias de menor renda e de 5,4% entre as de maior renda.

Os resultados de outubro reforçam a continuação do movimento de cautela das famílias em relação ao consumo. Mesmo com uma percepção ainda mais favorável do que a observada no ano passado, as perspectivas para o mercado de trabalho e as condições de aquisição de bens duráveis seguem influenciando as decisões dos consumidores.

*Com assessoria