É bem verdade que os sinais de mudança já eram muito evidentes na atividade política, como ela acontecia até os tempos antes de hoje. Não que eu estivesse em negação, tentando ainda manter o “velho” modo, mas o que me tem sido apresentado como o caminho da modernidade me parece tão somente o paroxismo do que já havia antes - do velho mais velho e carcomido.
Nunca a mentira teve pernas tão longas e a bobagem foi tão propagada, aos borbotões, como se esta fosse “a grande descoberta” dos que são ou dos que pretendem ser os profissionais do ramo. As dancinhas com o bumbum rebolando diante da tela, praticadas por garotões espertos e até por vovôs irresignados, apareceram, definitivamente, como o jeito indispensável para atrair as atenções e transmitir a mensagem do candidato.
Que mensagem, ora direis?
E eu vos direi, no entanto: que mensagem?
É impressionante como uma parcela significativa dos políticos faz questão de desmoralizar uma atividade que, como definiu Rubem Alves, seria fruto da “vocação mais nobre”, mas que resulta na “profissão mais vil”.
Ressalto: esta, acima, não é a demonização da política, até porque há gente muito boa e qualificada nesse meio. Só que parte dessa turma que se apresenta como moderna e vanguardista da tecnologia numa seara fundamental da humanidade, na prática, destrói o antigo fazer sem ao menos ter noção do que se pretende pôr no lugar – quando pensamos em bem comum e não apenas em se dar bem ou na vigarice de sempre.
O novo não há de ser bom apenas por ser novo, principalmente se carrega a semente de um dos mais antigos males da Humanidade: o veneno da alma, aquilo que nos cega e nos impele à violência, à barbárie – esta, sempre rediviva.
Algo como: novos tempos, velhos vícios.
Sim, eu me sinto deslocado, mas indisposto a ingressar numa seara em que não acredito saudável. Entendo que as populações humanas passam por momentos críticos, de autodestruição, sem que nem ao menos se deem conta disso, e me parece que estamos vivendo no centro de um deles - que pode até durar, mas acaba, até pela dor e pelo cansaço que se seguem.
Já me indaguei, e o fiz aqui neste espaço, como haveriam de se sentir os povos europeus na década de 1930, quando reinavam em seus países - com apoio massivo - Hitler, Mussolini, Salazar e Franco, sem perspectiva de mudança no curto prazo para os que ansiavam por viver em um mundo mais civilizado e menos violento.
Ainda creio que a solução para todos os povos, do bom convívio e da justiça social, esteja na política, mas não do jeito que se apresenta agora sob o signo da modernidade e como a inevitável marcha dos povos para o futuro. Até porque não vejo futuro feliz para os homens e mulheres nessa trilha de ódio e estupidez.
E mais: sempre entendi que os profissionais desse ramo devem representar a vanguarda do pensamento político, com suas ideias e pontos de vista. Aliás, a política deveria ter como definição básica “a arte de juntar”, e não o contrário. Mas a pergunta que aqui cabe é: essa turma das dancinhas e dos ódios destilados é vanguarda de quê, mesmo?
Eu passo. E o que faço, então?
Concomitantemente ao meu trabalho, ao abrigo do meu violão e à tela da melhor arte, sigo o conselho de Mário Vargas Llosa que, no seu “A civilização do espetáculo”, nos entrega os ensinamentos de sua paixão e razão:
- A literatura abarca toda a experiência humana... É uma atividade que se alimenta no fundo comum da espécie e à qual se pode recorrer incessantemente em busca de ordem quando parecemos imersos no caos, de alento em momentos de desânimo.
Talvez muitos considerem que essa seja uma manifestação de acomodação ou alienação, mas entendo que é, sim, uma tentativa de não ficar apenas na pele das coisas.
Até para saber com mais clareza as diferenças entre civilização e barbárie.
