Já me perguntei, sem encontrar resposta, se a personagem central de “Pigmaleão”, do escritor irlandês Bernard Shaw, não inspirou Charles Chaplin para escrever – dirigir e representar – “Luzes da cidade”, um dos meus filmes preferidos entre todos que vi até hoje (já assisti mais de dez vezes, e me emociono sempre com a cena final: “É você?”).

A personagem central da peça (1913) de Shaw é uma mendiga que vende flores pelas ruas de Londres e que o enredo torna uma mulher da alta sociedade. A protagonista de Chaplin (1931) é uma mulher cega, também vendedora de flores, pela qual o “vagabundo” se apaixona. Mas, enfim, já se disse que nada se cria do nada: a beleza replicada pode, sim, ser também beleza.

O teatrólogo, hoje se sabe, mantinha uma rivalidade inteligente e divertida com Winston Churchill, o primeiro-ministro inglês que escreveu seu nome na História, ele próprio, notadamente na 2ª Guerra Mundial (e, ao que parece, não a última).

Ele escreveu no convite endereçado a Churchill para uma das estreias de “Pigmaleão”:

“Tenho o prazer e honra de convidar o digno primeiro-ministro para a primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver.”

O político respondeu ao modo, sendo ele também um gozador e grande frasista:

“Agradeço ao ilustre escritor o honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver.”

Bingo!

Tenho profunda admiração pela inteligência sutil, claro, se ela não é um instrumento para crimes e outras maldades. 

Fato é que Bernard Shaw sabia em que vespeiro estava mexendo, e apontou para um dos grandes buracos na vida dos políticos profissionais: a inexistência total e absoluta de uma das mais importantes e saudáveis experiências humanas – a amizade.

Os grandes clássicos da “ciência política” (prefiro chamar filosofia), que atravessaram séculos com suas obras – Maquiavel, Étienne de La Boétie e Montaigne, todos do século XVI -, já destacavam a impossibilidade de se ter amigos no meio em que eles trabalham, vivem e, muitas vezes, morrem. Até para a família, eis o busílis, é complicado - quase nunca está entre as prioridades.

A potencial competição entre os aliados, eis o busílis, leva cada um desses personagens com suas personas a renunciar a uma relação franca e desarmada, sob pena de, mais adiante, ter seus segredos revelados e expostos ao grande público (se bem que, por esses tempos, o peso da vergonha tenha sido e muito aliviado pelos e para os profissionais do ramo). E se a disputa pelo poder se estabelecer entre eles – elas -, aí é de chamar  polícia e médico.

Convenhamos que não é pouco, pelo menos para mim, o que eles perdem com esse necessário comportamento, para ganhar em outros quesitos. Os políticos são pessoas iguais aos homens e mulheres comuns, só que habitam um lócus onde os fracos não têm vez, esticando aqui o sentido da palavra - “fracos” - para entendê-la como a denominação dos que são incapazes de ter o punhal na mão, em condições normais de temperatura e pressão.

Já escrevi aqui sobre a solidão de Brasília. Não por acaso, as companhias pagas na capital federal se multiplicam e encontram por lá um largo mercado de trabalho e possibilidade de profissionalização bem remunerada.

Sobre a dupla lá de cima, uma afirmação e uma dúvida:

- A peça de Shaw, Pigmaleão, até hoje é montada nos palcos de todo o mundo;

- Churchill, por sua vez, encontrou ao menos um amigo na sua longa existência?