Na era dos indóceis bárbaros, claro, a chance de sobrevivência do personagem seria nenhuma. Mas não era o caso naquelas décadas da segunda metade do século XX. Até porque a morte que leva a multidão ao delírio, hoje, contrariando os romanos tempos, acontece não mais na arena - ela se repete exaustivamente onde a plateia se posta para acompanhar o seu próprio espetáculo.

Não dá para imaginar, nos dias que atravessamos, seu Pedro Farias, o “Pedro Doido”, assim apontado pelos inimigos encarnados,  xingando os adversários e incentivando seus heróis adornados de azul - a definitiva cor do seu coração.

Confesso de peito aberto e saudoso: nunca revelei àquele homem pequenino e peripatético a minha verdadeira paixão pelo Galo da Pajuçara. Se o fizesse, não teria certamente usufruído da sua entusiasmada conversa, repleta das coisas que aconteciam no Mutange, ninho do Azulão, meu visceral adversário. Para ele - e foi assim até quando morreu, em 1976 - eu era mais um dos seus. E estava de bom tamanho. 

Menino da Buarque de Macedo, eu o acompanhava em seus passos apressados pela calçada ou pelos trilhos do trem, ouvindo suas histórias sobre Tonho Lima, Eric e Zé Galego; depois, Giraldo, Duda, Paranhos, Soareste, Batoré, Otávio e outros. Não tratávamos, obviamente, de um ídolo especial dos azulinos de então: Manuel Amaro, o "imparcial" árbitro alagoano, que apitou o jogo do milésimo gol de Pelé. Com ele em campo, o CSA nunca ficava em desvantagem – jurava o indignado seu Luiz Mota, responsável maior por eu ter me tornado regatiano.

Terno branco, sapatos pretos, e por baixo do paletó a inseparável camiseta branca com o escudo do CSA, da sua melhor coleção. Era assim que se vestia, sempre, aquela celebridade alagoana - conhecida também por ser (e era) o corretíssimo tesoureiro da Previdência Social em Alagoas. Sua fama, no entanto, vinha do amor que estampava no peito, em qualquer local ou ocasião.

Seu Pedro era um atleta, mesmo fumando dois maços de cigarro por dia - o que o levou à morte, provavelmente, por conta de um câncer de pulmão. E como não sê-lo tendo de acompanhar, como sempre fazia, as partidas dos azuis no campo todo? Do lado de fora do gramado, está certo, mas não parava o pequenino e apaixonado torcedor: ia de um lado a outro do alambrado, na Pajuçara ou no Mutange, incentivando o ataque do seu time, ou orientando a defesa do Azulão a barrar as investidas inimigas. 

"Chuveirinho, chuveirinho!", gritava ele quando a extensão do estádio, o Trapichão (Rei Pelé), não permitia mais a sua maratona de cada jogo. Na boca do túnel do CSA, ou por trás do gol do CRB, era o mesmo o seu grito de guerra. E ninguém ali seria capaz de atacar o inflamado azulino nem com um bagaço de laranja. "Pedro Doido" era, sim, um hit de longas datas do maior clássico das Alagoas. 

Seu Pedro se foi e levou com ele a era romântica do futebol alagoano. Supersticioso, como bem cabia e cabe aos apaixonados do esporte (o saudoso Fredão, meu amigo querido, foi seu herdeiro do amor às cores azul e branca, mas seu sentimento mais agudo era mesmo pelo Palmeiras).

Sempre que ia ao Rei Pelé, seu Pedro exigia do sobrinho Fernando Teles que estacionasse o carro em frente ao número 110 da Rua Ary Pitombo. Havia sido naquela calçada - "no 110, no 110"! -, exatamente, que o mesmo veículo ficara (sem ser arrombado, então) quando da vitória do CSA sobre o CRB, na seletiva do campeonato brasileiro de 1974: 3 a 1. Por que mudar, mudar por quê? 

Mas a história mais marcante da sua trajetória no futebol alagoano já vinha de muito longe, contavam os antigos, inclusive meu pai. Anos de 1960, no Estádio Severiano Gomes Filho (do CRB) , e o Galo aplicava uma sonora goleada no time do Mutange - 5 a 1. Jogo perdido para todos... menos para o seu Pedro. 

"Chuveirinho, chuveirinho"! E o abatido CSA tentando reduzir a humilhação. Deu certo. Era o fim da partida, praticamente, e os de azul ainda fizeram mais um golzinho. O suficiente para que seu Pedro explodisse loucamente em alegre desabafo, e, ato reflexo, enfiasse seu guarda-chuva no chão com toda a força. 

Desculpem-me: no chão, coisa nenhuma! Entre a ponta da indefectível "lança" arremessada pelo guerreiro e o solo estava o pé de outro solidário torcedor dos azuis. 

Este soube ali o que era a dor de uma paixão.