Um paciente com tumor no fígado recebeu, no último dia 14, microesferas de vidro carregadas com material radioativo diretamente nos vasos sanguíneos que alimentam a lesão. Conduzidas por um cateter, as partículas chegam à região tumoral e atuam de duas formas: reduzem o suprimento de sangue do tumor e liberam radiação para destruir as células cancerígenas. O procedimento, chamado radioembolização hepática, passou a ser realizado pela Santa Casa de Maceió.
As microesferas contêm Ítrio-90 (Y-90) e são administradas de forma seletiva, permitindo concentrar o tratamento na área do tumor. A técnica reúne as equipes de Radiologia Intervencionista e Medicina Nuclear.
“Primeiro ela emboliza, então corta o suprimento de sangue, porque a esfera de vidro vai evitar que chegue mais sangue para nutrir o tumor. E a radiação emitida pelo Ítrio-90, destrói a célula tumoral”, explica o médico nuclear André Gustavo Pino.
Para o especialista, a implantação amplia as possibilidades terapêuticas disponíveis no estado. “É um marco para o hospital e para a Oncologia de Alagoas a gente poder implantar esse serviço de radioembolização hepática”, afirma.
O tratamento é realizado em duas etapas. A primeira funciona como um planejamento para verificar como o material se distribuirá e calcular a dose que poderá ser administrada com segurança. Por meio de um cateterismo seletivo, o radiologista intervencionista chega aos vasos que irrigam a lesão e injeta um macroagregado de albumina. Depois, o paciente segue para a Medicina Nuclear, onde são feitas imagens para avaliar a distribuição do material.
“Na primeira fase, a gente faz a dosimetria, o cálculo da dose. É realizado o cateterismo seletivo da lesão, injeta o macroagregado de albumina, depois o paciente vai para a Medicina Nuclear, é visto se o macroagregado ficou somente na lesão e, a partir daí, faz o cálculo da dose e se ele é elegível a realizar o tratamento através de radioembolização”, detalha o radiologista intervencionista Ângelo Bomfim.
O planejamento também permite verificar se existe risco de o material atingir outros órgãos. Segundo André Gustavo Pino, uma das avaliações é identificar um possível escape para os pulmões. Os resultados são discutidos por uma equipe que envolve Oncologia, Radiologia Intervencionista, Medicina Nuclear, Física Médica e Radiofarmácia antes da definição da estratégia para cada paciente.
Confirmada a indicação, o paciente retorna à Hemodinâmica. O cateter é novamente levado até os vasos definidos no planejamento e, desta vez, são administradas as microesferas com Ítrio-90.
Apesar da complexidade, o procedimento é minimamente invasivo. O acesso para o cateter é feito pela virilha, com sedação e anestesia local. “A beleza desse procedimento é que ele tem o conceito de um tratamento minimamente invasivo. O paciente, com uma sedação e uma anestesia local na virilha, recebe o agente no tumor e, para o paciente selecionado, ele tem resultado comparável com o resultado da cirurgia”, afirma Ângelo Bomfim. Segundo o especialista, em casos selecionados, a radioembolização também pode integrar uma estratégia de tratamento com intenção curativa.
A técnica pode ser indicada para pacientes com hepatocarcinoma, tumor originado no próprio fígado, e para metástases hepáticas provenientes de outros tipos de câncer. Também pode ser utilizada para controlar ou reduzir a doença antes de uma cirurgia ou como ponte para um transplante hepático.
Pacientes que já passaram por tratamentos como quimioembolização, ablação ou quimioterapia e continuam apresentando progressão da doença também podem ser avaliados. Em algumas situações, a radioembolização pode ajudar a controlar uma lesão que, naquele momento, impede a realização de uma cirurgia.
Uma das características do procedimento é a ação localizada da radiação. “Essa radiação, como ela é seletiva, é localizada no tumor. Então, o efeito da radiação é local, é um tratamento de alta precisão e muito seletivo”, explica André Gustavo Pino.
As microesferas permanecem no fígado, mas a radioatividade do Ítrio-90 diminui progressivamente. O paciente costuma ficar internado por cerca de 24 horas devido aos cuidados relacionados ao cateterismo e não precisa permanecer isolado após a alta por causa da radiação.
Os primeiros procedimentos realizados na Santa Casa de Maceió contaram ainda com a participação do radiologista intervencionista Charles Zurstrassen, do Hospital AC Camargo, em São Paulo. O especialista destaca que a radioembolização já integra o rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
“Muito importante salientar que hoje esse procedimento já consta no rol da ANS, então ele é de cobertura obrigatória para os convênios”, afirma Charles Zurstrassen.
Para André Gustavo Pino, a incorporação da radioembolização amplia o arsenal disponível para o tratamento dos tumores hepáticos, mas a definição da melhor estratégia depende da avaliação de cada caso. “Que procure um especialista, um hepatologista, um oncologista, um serviço que tenha a cultura de discussão multidisciplinar. Isso pesa muito e comprovadamente melhora o desfecho”, orienta.
