Pais de alunos do Colégio de Aplicação Professora Telma Vitória (CApTV), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), denunciam a redução das aulas, possíveis casos de assédio contra profissionais e problemas na condução da unidade.

Segundo os responsáveis, a retirada dos servidores cedidos pela Secretaria Municipal de Educação de Maceió (Semed), alguns dos quais teriam relatado situações de assédio, fez com que turmas que funcionavam em período integral passassem a receber os estudantes em apenas um turno.

A Semed confirmou ao CadaMinuto que funcionários da rede municipal apresentaram denúncias envolvendo docentes da Ufal. Algumas delas foram registradas na Controladoria-Geral da União (CGU) e encaminhadas à Reitoria da universidade em agosto.

Uma mãe ouvida pela reportagem afirmou que o edital do processo seletivo previa atividades das 7h30 às 17h. Atualmente, conforme o relato, há mudanças informadas com pouca antecedência e aulas canceladas durante o período.

“Participamos de um processo seletivo e o edital deixava claro que nossos filhos teriam horário integral. Hoje, mal temos um turno e, algumas vezes, as aulas são canceladas no meio do período. Nossos filhos estão sem o atendimento que foi garantido”, relatou.

Dossiê reúne documentos e relatos

Um dossiê elaborado por pais e responsáveis reúne documentos oficiais, reclamações encaminhadas aos órgãos de controle e relatos da comunidade escolar sobre acontecimentos registrados entre 2024 e 2026.

O material aponta que o CApTV atendia 114 crianças na Educação Infantil e no Ensino Fundamental em fevereiro deste ano. A demanda por vagas, no entanto, seria superior ao dobro da capacidade da unidade.

Em 24 de julho, a direção tomou conhecimento de uma comunicação da Semed que determinava o retorno de todos os profissionais municipais cedidos ao colégio até o dia 30 daquele mês. O documento está vinculado ao Processo Administrativo nº 6500.33394.2026.

Três dias depois, a gestão enviou um ofício urgente ao reitor Josealdo Tonholo no qual alertou para um “colapso operacional iminente”. A direção informou que todas as turmas passariam a funcionar em regime parcial até o fim do ano letivo.

O mesmo documento comunicou a suspensão temporária do Ensino Fundamental a partir de 2027. Entre as razões apresentadas estão a falta de estrutura adequada e o número insuficiente de profissionais disponibilizados pela própria Ufal.

Dos cinco trabalhadores de apoio previstos para a expansão dessa etapa, apenas um teria sido destinado à unidade. A direção também citou a ausência de biblioteca, laboratórios, quadra coberta, cozinha e refeitório adequados.

No ofício, a gestão pediu que a Reitoria negociasse com a Semed um acordo de longo prazo para assegurar a permanência dos servidores municipais na Educação Infantil.

Professora questiona devolução à Semed

A professora Isabel Freitas, servidora da rede municipal, afirma ter sido devolvida à Semed sem receber uma justificativa no momento da decisão. O caso foi levado ao sistema Fala.BR, plataforma da Ouvidoria-Geral da União.

Segundo a docente, ela foi chamada pela gestão para uma reunião na manhã de 14 de maio e comunicada de que não permaneceria no colégio.

“Perguntei qual seria o motivo da devolução, visto que nunca houve nenhuma reclamação formal dirigida à minha pessoa. As gestoras responderam que, naquele momento, não apresentariam nenhuma justificativa e que estavam apenas me comunicando a decisão”, contou.

Freitas disse ter solicitado uma explicação durante a reunião e reiterado o pedido por e-mail, sem obter retorno. No mesmo dia, foi retirada dos grupos institucionais de mensagens.

“Fui retirada de todos os grupos da instituição, sem direito sequer de me despedir das famílias e das crianças”, acrescentou.

Direção considera ato regular

A reclamação dela foi respondida no Fala.BR em 16 de julho. No despacho, a direção argumentou que a docente é servidora do Município de Maceió e não integra o quadro funcional da universidade.

O encerramento da colaboração foi classificado como um “ato discricionário da gestão”, baseado em conveniência administrativa e no alinhamento organizacional da escola. A resposta sustenta ainda que a medida não teve caráter disciplinar ou punitivo.

Sobre a retirada dos grupos de WhatsApp, a gestão afirmou que o procedimento faz parte da rotina de segurança da informação quando um profissional encerra as atividades na unidade.

Ao final, a direção considerou regulares os atos praticados e solicitou o arquivamento da reclamação. No sistema, entretanto, o campo “demanda resolvida” aparece marcado como “não”.

O que diz a Semed

Em nota, a Semed informou que não existe parceria formalizada para a cessão de professores da rede municipal ao Colégio de Aplicação da Ufal. Apesar disso, docentes e auxiliares de sala do município atuavam na unidade.

Segundo a pasta, o retorno dos profissionais foi solicitado para atender à demanda da rede municipal e também a pedido dos próprios servidores.

A secretaria informou ainda que funcionários da Semed apresentaram denúncias de assédio contra docentes da Ufal. Algumas delas teriam sido registradas na Controladoria-Geral da União (CGU).

A Semed acrescentou que encaminhou parte das denúncias à Reitoria da Ufal em agosto e que uma reunião presencial deve ocorrer ainda nesta semana para discutir o caso.

O que diz a Ufal

Em nota, a Ufal informou que o Gabinete da Reitoria acompanha as denúncias envolvendo a gestão do Colégio de Aplicação Telma Vitória. Segundo a universidade, as ocorrências relatadas já foram encaminhadas aos setores responsáveis.

Sobre a retirada dos profissionais cedidos pela rede municipal, a instituição afirmou que mantém tratativas com a Semed e o Gabinete do Prefeito de Maceió. As negociações buscam, conforme a nota, uma solução técnica, jurídica e administrativa que preserve as atividades e garanta a manutenção do CApTV.

A Ufal acrescentou que, após a conclusão das discussões, realizará uma reunião para apresentar à comunidade escolar as soluções definidas.

Veja a nota da Semed na íntegra:

“A Secretaria Municipal de Educação de Maceió (Semed) esclarece que não há parceria formalizada para cessão de professores da rede municipal para a Ufal (Colégio de Aplicação).

Apesar disso, havia vários profissionais, entre professores e auxiliares de sala, cedidos ao local, mas foi solicitado o retorno deles, não somente em virtude da demanda da rede municipal, mas também a pedido dos próprios servidores da Semed.

Houve denúncias de assédio por parte dos funcionários da Semed contra docentes da Ufal, algumas delas registradas, inclusive, na Controladoria Geral da União (CGU).

A Semed, encaminhou à Reitoria da Ufal, neste mês de agosto, algumas dessas denúncias e uma reunião, presencial, deve ocorrer ainda nesta semana, para tratar do tema.”

Veja nota da Ufal na íntegra

“A respeito dos questionamentos recebidos sobre denúncias envolvendo a gestão do Colégio de Aplicação Telma Vitória (Captv), a Gestão Central da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) esclarece que o Gabinete da Reitoria (GR) está acompanhando as ocorrências relatadas, todas elas já sob os cuidados dos setores competentes.

No que diz respeito às relações do Captv com a Secretaria Municipal de Educação (Semed) de Maceió, fica esclarecido que vêm sendo feitas tratativas da Reitoria com Semed e o Gabinete do Prefeito, todas as partes empenhadas na construção de um caminho técnico, legal e administrativo que não gere interferência sobre as atividades do colégio de aplicação e que garantam a manutenção do Captv.

Desse modo, tão logo estejam concluídas essas discussões técnicas entre as partes, será agendada reunião para apresentar à comunidade usuária as soluções alcançadas.”