O número de empresas inadimplentes no Brasil atingiu um novo recorde e passou a superar os níveis observados durante a pandemia de Covid-19. Dados da Serasa Experian mostram que 9,1 milhões de empresas estavam negativadas em junho, o maior patamar da série histórica do indicador. As dívidas somavam R$ 232,9 bilhões, com destaque para o impacto sobre micro e pequenas empresas, que concentram a maior parte dos registros.
O avanço da inadimplência ocorre em um cenário de crédito mais restritivo, juros ainda elevados e menor ritmo de consumo, fatores que dificultam a recomposição do caixa das empresas e reduzem a capacidade de investimento. Segundo a Serasa Experian, as condições financeiras continuam limitando uma recuperação mais consistente do mercado de crédito, mesmo após o início do ciclo de redução da taxa básica de juros.
O cenário atual chama atenção quando comparado ao período mais crítico da pandemia. Em 2021, durante a crise sanitária, a inadimplência empresarial cresceu em meio à paralisação de atividades, queda de faturamento e incertezas sobre a retomada econômica. Naquele momento, o número de empresas negativadas estava em torno de 5,9 milhões de CNPJs.
A comparação, porém, precisa considerar as diferenças entre os dois períodos. Durante a pandemia, o principal impacto veio da interrupção de atividades e da queda abrupta das receitas em diversos setores. Atualmente, a dificuldade ocorre com a economia em funcionamento, mas em um ambiente de custos financeiros elevados, menor capacidade de consumo das famílias e maior dificuldade para administrar dívidas acumuladas.
Pequenos negócios
As micro e pequenas empresas permanecem como o grupo mais afetado pelo avanço da inadimplência. Segundo a Serasa Experian, dos 9,1 milhões de CNPJs negativados, 8,6 milhões são micro e pequenas empresas, que acumulam R$ 201,4 bilhões em dívidas.
O impacto é maior nesse segmento porque pequenos negócios geralmente possuem menor reserva financeira e dependem mais do fluxo regular de vendas para manter suas operações. Em um ambiente de crédito caro, muitas empresas passam a utilizar financiamento não para expansão, mas para manter o capital de giro e cumprir compromissos financeiros.
Durante a pandemia, o desafio era manter a atividade diante das restrições de funcionamento. Hoje, o problema está relacionado principalmente à capacidade de sustentar a operação diante de despesas maiores, vendas mais fracas e custo elevado do dinheiro.
Famílias endividadas
A dificuldade das empresas ocorre paralelamente ao aumento do comprometimento financeiro das famílias. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), aponta que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho, o maior nível da série histórica.
O índice também supera o observado durante a pandemia. Em 2021, a média anual de famílias endividadas ficou em 70,9%. Naquele período, o aumento do endividamento esteve relacionado principalmente aos efeitos da crise sanitária sobre renda e emprego.
Atualmente, o comprometimento da renda ocorre em um ambiente diferente: com famílias utilizando mais recursos para pagar dívidas, sobra menos espaço para novas compras, afetando diretamente setores como comércio e serviços. A CNC aponta ainda que, em julho, o comprometimento médio da renda das famílias com dívidas chegou a 29,5%.
Juros e condições de crédito
O avanço da inadimplência empresarial amplia as discussões sobre as condições da economia brasileira, principalmente em relação ao custo do crédito e ao ambiente de juros. Para entidades empresariais, medidas de renegociação de dívidas podem ajudar no curto prazo, mas precisam estar associadas a condições que permitam a recuperação da capacidade de consumo e investimento.
A combinação entre empresas com dificuldade de caixa e consumidores mais endividados cria um cenário de menor circulação de recursos na economia. Com menos consumo, os negócios enfrentam dificuldades para aumentar receitas; com crédito mais caro, torna-se mais difícil reorganizar dívidas e financiar novos investimentos.
Diferentemente da pandemia, quando a crise foi provocada por uma paralisação extraordinária da atividade econômica, o momento atual é marcado por uma deterioração gradual das condições financeiras de empresas e famílias. O recorde de inadimplência mostra um desafio para a retomada do crescimento, especialmente entre os pequenos empreendedores e setores mais dependentes do consumo interno.
*Com informações da CNC
