“Não existe rap feminino e masculino. Tudo é rap.” A frase dita pela rapper alagoana HUNÁ resumiu o espírito da primeira edição do Delas Festival, realizada na noite deste domingo (2), no Rex Jazz Bar, no histórico bairro de Jaraguá, em Maceió.
Produzido por mulheres e pensado para colocá-las no centro da cena, o festival transformou o espaço em um ponto de encontro entre artistas, fãs e diferentes gerações do rap.
Diante de centenas de jovens, o evento mostrou que as mulheres não estão apenas conquistando espaço em um gênero ainda marcado pela presença masculina -- elas conduzem o movimento, ditam o ritmo e ampliam as vozes que chegam aos palcos.
A proposta aparecia em cada detalhe da programação, da escolha das atrações ao ambiente construído para receber o público. Durante toda a noite, as apresentações celebraram a liberdade, a diversidade e a força de mulheres que enfrentam a misoginia e a objetificação para ocupar uma posição de protagonismo na música.
Artistas como MC Luanna e HUNÁ representam essa transformação no rap nacional. Com letras que expõem desigualdades, confrontam padrões e narram experiências femininas, elas ajudam a mudar a relação das mulheres com o gênero — não apenas como artistas, mas também como público e agentes da cena cultural.
A DJ Clariar abriu a programação com um set marcado pela diversidade. Do pop internacional de “Like That”, de Doja Cat, a produções brasileiras como “Oi Linda”, de Nanda Tsunami, a artista construiu uma sequência formada principalmente por músicas de mulheres e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+.
A resposta veio imediatamente da pista. A cada faixa, o público cantava, dançava e acompanhava as transições. O entusiasmo crescia quando o repertório reforçava mensagens de autonomia e poder feminino, como nas canções de AJULIACOSTA, uma das principais referências artísticas da DJ.
HUNÁ transforma o palco

A entrada da rapper alagoana mudou a temperatura do Rex Jazz Bar. Com presença de palco e segurança, ela transformou a estrutura intimista da casa em um espaço que parecia maior do que suas dimensões.
Em “Bandida Má”, a confiança da artista alcançou as jovens que acompanhavam o show junto à grade e nas laterais do palco. Já faixas como “PRETA HOT” e “L.U.C.R.O” mantiveram o público em movimento e mostraram a versatilidade de uma apresentação que alternou potência, descontração e proximidade.
A artista também aproveitou o festival para apresentar músicas inéditas do EP “Meu Momento”. Ainda sem data de lançamento informada, o projeto aproxima a artista de uma sonoridade mais ligada ao trap tradicional e reduz a presença de elementos do pop encontrados em trabalhos anteriores.
Foi durante a apresentação da alagoana que MC Luanna, atração mais aguardada da noite, apareceu em meio ao público. A chegada antecipou o que viria pouco depois: um show conduzido com rimas afiadas, dança, conversa e uma conexão constante com quem ocupava o espaço.
MC Luanna leva turnê a Maceió

Sozinha no palco, a artista radicada em São Paulo sustentou uma das apresentações mais intensas da primeira edição do festival. A passagem da turnê “IRREFREÁVEL”, baseada em sua mixtape mais recente, levou o Rex Jazz Bar ao ponto máximo da noite.
As vozes do público ecoaram pela casa durante as músicas do projeto. Em faixas como “M” e “99 Problemas”, parceria com Duquesa, a cantora reafirmou o lugar que ocupa entre os principais nomes da nova geração do rap brasileiro.
O impacto da artista, no entanto, ultrapassa as canções. Diante do palco, mulheres demonstravam identificação com as letras, com a postura e com a estética apresentada pela rapper. Essa influência aparece nos cortes de cabelo, nas maquiagens, nas roupas e, principalmente, na segurança com que ocupavam aquele espaço.
O que poderia ser apenas mais uma noite de shows ganhou dimensão maior. Ao reunir artistas locais e nacionais em uma programação centrada nas mulheres, o Delas Festival se apresentou como um acontecimento relevante para a cena cultural de Alagoas.
A primeira edição terminou com expectativa de continuidade. Na Rua Sá e Albuquerque, entre os paralelepípedos de Jaraguá e as paredes do Rex Jazz Bar, o festival deixou a impressão de que aquele palco já nasceu pequeno para a força do movimento que recebeu.
Fã une literatura e paixão pela música
Entre as pessoas que aguardavam a apresentação de principal atração da noite estava Sâmala Rebeka, estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Fã da rapper há dois anos, ela levou um livro para entregar à artista.
“Quando eu conheci a MC Luanna, não imaginava que mulheres também faziam rap”, contou.
Sâmala começou a acompanhar a cantora pelas redes sociais e percebeu que as duas compartilhavam interesses por temas sociais e pela literatura. Depois de ler uma obra indicada pela rapper, a estudante entrou em contato com ela para conversar sobre a história.
“Foi um livro indiano que falava sobre as cotas na Índia, como isso afeta as mulheres e como essa exclusão também compromete o futuro delas”, explicou.
Na noite do festival, Sâmala carregava nas mãos “Belo Mundo, Onde Você Está”, da escritora irlandesa Sally Rooney. O exemplar seria entregue a MC Luanna. A obra aborda relações pessoais, trabalho e os afastamentos provocados pelas pressões da vida adulta — discussões que, para a estudante, dialogam com questões presentes no universo artístico da rapper.
Antes de conhecer Luanna, Sâmala sentia dificuldade em se reconhecer no rap por causa da predominância masculina. Embora grupos como Racionais MC’s discutam temas importantes, ela afirma que ainda sentia falta de narrativas que representassem diretamente sua experiência como mulher.
A descoberta de MC Luanna também abriu caminho para outras artistas. Por meio das indicações da rapper, a universitária ampliou o próprio repertório e passou a acompanhar mais mulheres do gênero.
“Comecei a acompanhar outras meninas do rap que ela mesma indicou. A partir disso, conheci várias outras artistas”, afirmou.
A experiência de Sâmala sintetiza um dos efeitos mais fortes do Delas Festival. Quando mulheres ocupam o palco, outras passam a se enxergar não apenas diante dele, mas também como possíveis criadoras, consumidoras e fomentadoras do rap.
