Em sua primeira apresentação em Maceió, MC Luanna encontrou mulheres ocupando o palco, a produção e a plateia do Delas Festival. O protagonismo feminino, no entanto, dividiu espaço com uma crítica feita pela rapper à falta de incentivo público ao setor cultural na capital alagoana.

“Em uma cidade onde sucateiam a cultura, ver mulheres trazendo essa narrativa e essa importância é aliviador. Seja na produção, na cultura ou entre outros artistas que também sonham estar aqui”, afirmou.

A artista encerrou a primeira edição do festival neste domingo (2), no Rex Jazz Bar, no bairro de Jaraguá. O show integrou a passagem da turnê “IRREFREÁVEL” pelo Nordeste e reuniu canções da mixtape de mesmo nome, lançada em 2025.

Baiana radicada em São Paulo, começou a ganhar projeção durante a pandemia da Covid-19, quando passou a publicar nas redes sociais vídeos caseiros cantando músicas autorais. A repercussão abriu caminho para faixas como “Kit Rosa” e “Bonde da Hello Kitty” e, posteriormente, para projetos de alcance nacional.

Entre os trabalhos lançados estão “44”, marcado pela dualidade entre a vida pessoal e a carreira, e “Sexto Sentido”, um dos projetos mais maduros de sua discografia. A cantora também ampliou sua presença no rap por meio de colaborações com nomes como Duquesa, em “99 Problemas”, e BUDAH, em “NÃO ADIANTA ME LIGAR”.

Logo após a apresentação, a artista conversou com o CadaMinuto sobre as dificuldades enfrentadas por artistas independentes, principalmente aqueles que constroem a carreira fora do eixo Rio-São Paulo.

Cultura exige mais do que talento

Créditos: Kael

Na avaliação da rapper, o poder público precisa criar estruturas que ofereçam formação, espaços de produção e oportunidades para quem deseja ingressar no mercado musical. O incentivo, segundo ela, deve alcançar tanto os artistas quanto os profissionais que trabalham nos bastidores.

“Você tem 200 letras na sua casa, mas como fazer esse movimento de onde produzir e como produzir? Eu acho que cada estado sofre muito com isso também”, disse.

Ela também ressaltou a importância de formar um público disposto a consumir e divulgar produções locais. Ainda assim, ponderou que o apoio dos ouvintes não resolve todos os obstáculos encontrados ao longo de uma carreira.

“Dependemos de várias outras coisas que, infelizmente, não são só sobre talento”, reforça.

Artista independente, a cantora aponta a falta de recursos financeiros e de uma rede profissional estruturada como alguns dos principais desafios para quem tenta viver de música. Gravações, deslocamentos e a contratação de equipes tornam o processo ainda mais difícil longe dos grandes centros da indústria.

Essa tensão entre autonomia criativa e as exigências do mercado atravessa “IRREFREÁVEL”. Na mixtape, a rapper reafirma a escolha de manter a própria identidade, mesmo diante da pressão por músicas pensadas para alcançar rapidamente as plataformas digitais.

“Em ‘IRREFREÁVEL’, eu falo que não é o que o mercado pede, mas eu sinto que entrego. Porque, às vezes, o mercado vai querer que você faça uma música de TikTok, mas eu não sou isso”, declarou.

Para a cantora, artistas precisam acreditar na própria verdade, ainda que essa decisão nem sempre ofereça retorno financeiro imediato. Ela contou ter recusado, na semana anterior ao festival, uma proposta de trabalho por considerar que o projeto contrariava seus princípios éticos e morais.

Mulheres contra a lógica da rivalidade
 

Créditos: Kael

A autonomia defendida pela MC também aparece na forma como ela enxerga a presença feminina no rap. Em vez de rivalidades, Luanna considera necessário construir redes de apoio para ampliar o espaço ocupado pelas mulheres.

“Apoiem umas às outras, porque já é difícil ter uma. Se vocês começarem a se odiar, dificultam ainda mais o processo”, aconselhou.

No Delas Festival, essa união apareceu em diferentes pontos da programação. Produzido por mulheres, o evento reuniu artistas, DJs e um público majoritariamente feminino em uma noite dedicada à presença delas no gênero.

Para a artista, encontrar essa movimentação mostrou que iniciativas locais conseguem abrir caminhos mesmo diante da falta de incentivo. A artista disse ter saído do show e interessada em conhecer outras mulheres que produzem música em Alagoas.

Maceió além dos pontos turísticos

Créditos: Kael

Embora esta tenha sido sua primeira apresentação no estado, a rapper já havia visitado a cidade durante as férias. Na ocasião, a cantora percebeu um contraste entre os pontos turísticos apresentados aos visitantes e os bairros atravessados durante os deslocamentos pela capital.

“Eu ia para uns passeios e chegava a lugares bonitos, só que, no caminho, ficava: ‘E essa população aqui? Essa pessoa aqui? E essa cidade aqui? Esse bairro aqui?’”, relatou.

A artista também contou ter observado pichações e outras manifestações escritas nos muros, mas não detalhou o conteúdo das mensagens nem os locais em que estavam. A experiência provocou uma leitura crítica sobre a forma como a cidade é promovida aos turistas.

“Enquanto turista, é como se o governo abandonasse a cidade e só focasse em turismo”, avaliou.

Ao retornar à capital para subir ao palco, a artista encontrou uma cena cultural conduzida por mulheres dispostas a criar os próprios espaços. O Delas Festival, segundo ela, mostrou que a produção local resiste e se movimenta apesar das limitações.

A passagem da turnê “IRREFREÁVEL” pela capital acabou marcada por esse contraste: de um lado, o “sucateamento” da cultura apontado pela rapper; do outro, a força de mulheres que continuam produzindo, abrindo palcos e renovando a cena musical da cidade.

*Estagiária sob supervisão da editoria