Tenho uma profunda admiração pelos biólogos evolucionistas, que nos possibilitam entender o que é vida e, talvez o mais importante, saber por que somos o que somos. É o caso, por exemplo, do cientista americano Robert Trivers, que morreu em março de 2026, aos 83 anos. Importante dizer: deixou a sua contribuição para a humanidade, até atenuando alguma das suas culpas.
O que disse esse professor de Antropologia e de Biologia, áreas do conhecimento que se completam, para que a sentença nos seja mais branda: a mentira faz parte do processo evolutivo da nossa espécie.
Exatamente! O autoengano, para quem preferir assim, nos põe no mundo do jeito que somos - e a ele também devemos. Acreditar, contrariando qualquer lógica, que água com açúcar cura doença braba; que a outra banda do par é fiel quando os fatos gritam o contrário – tudo isso, diz Trivers, foi construído ao longo de algumas dezenas de milhares de anos em que o Homo sapiens chegou fazendo barulho… e mentindo.
Não é de se comemorar? Não pela mentira em si, que não é lá uma grande qualidade humana, mas pelo fato de que sem ela dificilmente sobreviveríamos. Não faço apologia à dita-cuja, mas não posso negá-la (trato, aqui, das pequenas mentiras) no cotidiano de todos nós. Se o fizesse, estaria mentindo de novo.
Todo mundo, de alguma forma, “transforma” os fatos em seu favor: arredonda, aumenta, para que seja, ao final do enredo, um herói de ocasião, o melhor protagonista do que bem poderia ter acontecido.
É verdade que, às vezes, o exagero toma contorno de pura criação ficcional. Tenho um amigo querido que é mestre nessa arte (também). Ao longo de uma convivência de décadas, flagrei-o algumas vezes narrando uma ocorrência em que eu – e não ele, como estava afirmando – havia sido o protagonista. Lembro-lhe, então. Ele? Solta uma boa e sincera risada, e damos o caso por encerrado. Imagino que, em algum momento, eu tenha feito o mesmo.
Sempre tive uma curiosidade especial em relação aos mitômanos - os mentirosos compulsivos. Quem já conheceu de perto um desses espécimes sabe que eles em nada se esforçam para inventar uma história: simplesmente contam-na. Se desmascarados, apresentam a próxima mentira sem qualquer constrangimento. Porque acreditam no que estão dizendo.
E cá para nós: como foi fácil descobrir quando os nossos filhos estavam mentindo! Por um motivo cristalino: também mentimos para os nossos pais. Não que devamos celebrar o processo de embromação, pois voltaríamos totalmente para o autoengano. Eles precisaram, em algum momento, ser “desmascarados” – como fomos reiteradas vezes -, e acredito mesmo que isso faz parte do processo educativo (até hoje necessitamos, aqui e ali, de uma autorrepreensão quando ela não vem de fora).
Mas nada de condenação à prisão perpétua. Quem somos nós se não autores igualmente de algumas versões discutíveis?
Há, é claro, as grandes mentiras. Por exemplo: por mais de mil anos a humanidade acreditou que o Sol girava em torno da Terra. Afinal, o grande Aristóteles o dizia na sua nada vã filosofia. E quanto mais avançava no tempo, mais mentirosos sua teoria atraía. Por ela, tantos morreram condenados ao fogo do inferno bem antes que lá chegassem.
Não, eu não acredito que a mentira é a verdade que não deu certo. Mais errado seria, porém, imaginar que o mundo poderia sobreviver sem a presença de qualquer uma delas – gêmeas que são numa mesma existência.
