Chego a um supermercado perto da minha casa e procuro uma vaga de “idoso” no estacionamento. Afinal, já de há muito estou na casa dos “enta” e esta me parece, até agora, a única vantagem no mundo dos homens jovens, bonitos e saudáveis.
Olhei e, sim, tinha um cantinho ainda, mas uma das faixas que delimitam o espaço entre as duas vagas estava tomada pelo pneu de um carro, que não me pareceu tão largo a ponto de não caber ali.
Bom, mas o tal lugar ao lado da placa de idoso, o meu, era exclusivo para mulheres grávidas, conforme a evidente sinalização - o que inibiu qualquer reclamação da minha parte. Afinal, como cantou Nélson Cavaquinho, “a cobra não morde uma mulher gestante”. E se não há ciência no verso, como imagino, ele está carregado de uma reverência que até o mais insensível entre nós admite e até pratica.
Mas eis que chega a pessoa que estacionou o veículo “invasor” na vaga de gestante, e era na verdade um atleta de academia, com a espessura do braço próxima à circunferência da minha perna (todo supermercado, vocês sabem, tem hoje uma academia em anexo. Daí...).
Ele cumprimentou-me pelo nome e disse que iria já retirar o seu carro. Atrevido e correndo o risco de levar uma rebordosa, brinquei:
- E a barriguinha, hein?
- Tem barriga nenhuma, aqui é tanquinho.
- E o pessoal nem nota, né?
- Todo mundo vê, aqui é chapado.
Imaginei que ele falasse mesmo do seu abdome musculoso, mas não argumentei e nem quis esperar a sua manobra. A emenda poderia ficar pior do que o soneto, e convenhamos, eu sei que sou um mau poeta.
De há muito, gente, eu cheguei à conclusão de que o que há de mais democrático entre nós, independentemente da faixa etária, classe social, religião, ideologia política, sem dúvida é a falta de educação no trânsito. Vai desde o motoqueiro que trabalha como entregador, correndo em busca da vida e às vezes encontrando a outra, ao dono do carrão importado, que desrespeita a faixa de pedestre, estaciona sobre a calçada – e por aí segue, solto e impune.
Acho muito civilizado uma ciclovia e até aplaudi a prefeitura de Maceió por ter investido – e é barato – na construção de ciclofaixas pela cidade. Aqui, perto de mim, no Murilópolis, há uma delas bem delimitada, a pintura ainda bastante vívida, em que os trabalhadores e estudantes transitam toda manhã bem cedo.
Infelizmente, tendo que dividir o espaço com as motos – mesmo as importadas - e até, creiam, com carros mais apressados.
Fato é que temos por hábito reclamar dos políticos de forma geral, e até com razão, mas imaginamos, ao fazê-lo, que somos modelos de virtude. Cobramos desses personagens um comportamento civilizado e urbano, mas largamos de mão o freio interior, ou simplesmente afogamos/enforcamos o superego, esse incômodo personagem da nossa alma. Afinal, todos sabemos o que é certo e o que é errado.
No julgamento do endogrupo, o lado de fora está sempre beirando o crime, afinal, “o inferno são os outros”. Suponho, entretanto, que o “dito-cujo”, “o coisa-ruim”, “o enxofrado” não suportaria uma concorrência tamanha.
Mas reparando bem, eu posso, por esses tempos, ter me enganado quanto ao atleta que ocupou a vaga de gestante: e se ele estiver mesmo grávido?
Terei pecado em pensamento e na escrita desta crônica.
