"Eu vivi aqui a minha vida inteira, conheço cada pedacinho do Benedito Bentes”, desabafa a estudante de Pedagogia Josy Marinho alegando que o aumento no preço do aluguel dos imóveis chega a assustar.
“É muito desanimador perceber que você pode ser obrigada a sair do bairro onde cresceu, onde está sua família e seu trabalho, só para achar um lugar onde consiga viver... Não para esbanjar, mas apenas para ter uma margem de sobrevivência. Isso é muito triste”.
O lamento da estudante criada no Benedito Bentes 1, traduz em palavras o sentimento de uma parcela expressiva da classe trabalhadora maceioense: o medo real de ser desterrada de seu próprio território pela força implacável da especulação imobiliária.
Como trabalhadora sob o regime CLT e universitária, Josy vive na pele a conta que não fecha, tendo que recorrer a uma verdadeira ginástica financeira para manter o teto sob o qual planeja seu futuro.
A busca por uma moradia digna e compatível com o orçamento de quem precisa dividir o tempo entre os estudos e o trabalho virou uma saga desgastante. "A minha experiência aqui com aluguel de imóveis foi assustadora no começo", relata Josy.

"Já morei de aluguel outras vezes e os preços sempre foram razoáveis, cabiam no bolso de qualquer trabalhador CLT nessa região. Mas, com a expansão do bairro, os preços de aluguel e compra foram parar lá em cima. Casas que valeriam R$ 600, R$ 700 no máximo, hoje o pessoal cobra R$ 1.500, R$ 1.800”, assegura.
A mudança no perfil dos imóveis ofertados no bairro escancara como o padrão de moradia caiu ao mesmo tempo em que os preços dobraram. Josy relembra que há apenas três anos a realidade era completamente diferente, mesmo sem ir muito longe no tempo.
Há 3 anos ela pagava R$ 450 (fora água e luz) por um apartamento amplo no primeiro andar, com dois quartos, sala enorme, corredor, área de lazer na frente e quintal. Hoje, por estruturas muito menores, contendo apenas um quarto, sala, banheiro e cozinha apertada, com a lavanderia integrada e sem qualquer área externa, o mercado local cobra entre R$ 800 e R$ 900 (fora água e luz).
No início, quando amigas de outras regiões de Maceió pediam indicações de moradia no Benedito Bentes e desistiam por conta dos valores altos, Josy achava que era exagero.
"Eu mandava as opções e elas diziam: 'Josy, não vou alugar aí, prefiro ficar na parte baixa porque o aluguel no Benedito está muito caro'. Eu achava que era preciosismo. Mas este ano, quando eu mesma precisei pesquisar para mim, eu me assustei. O padrão atual deveria ter um valor muito mais baixo do que o mercado está cobrando", relata a estudante.
O m² mais caro do nordeste
A percepção de sufoco descrita por Josy encontra respaldo estatístico nos índices econômicos nacionais.
Longe de ser um fenômeno restrito às conversas de calçada, a capital alagoana consolidou-se como a cidade com o metro quadrado mais caro de todo o Nordeste para venda e locação residencial, segundo dados de índices de mercado como o FipeZap.
O avanço acelerado nos preços das transações imobiliárias em Maceió superou capitais tradicionalmente mais caras e densas da região, como Salvador, Recife e Fortaleza.
Essa disparidade cria um "efeito cascata" socioespacial implacável. À medida que as áreas litorâneas e nobres da capital alcançam valores exorbitantes e proibitivos para a classe média, ocorre um processo de expulsão indireta.
A forte valorização no topo da pirâmide imobiliária funciona como uma prensa que empurra a população de menor renda para as extremidades geográficas da cidade.
Na falta de regulação, bairros populares e tradicionalmente acessíveis, como o Benedito Bentes, acabam absorvendo essa pressão, fazendo com que pequenos cubículos passem a ser precificados de forma desproporcional à realidade salarial local.
Três motores de uma crise
Se o topo da tabela do metro quadrado nordestino assusta, a explicação para essa escalada vertiginosa vai muito além de um único fator. O professor da Universidade Federal de Alagoas e economista Cid Olival aponta que Maceió vive hoje a convergência de três grandes forças macroeconômicas e locais que, juntas, inflacionam o mercado habitacional de forma inédita.
Segundo ele, a base dessa pirâmide de encarecimento está associada ao maior crime socioambiental em área urbana do mundo. O colapso do solo provocado pela Braskem exigiu a desocupação forçada de bairros históricos como Pinheiro, Bebedouro, Mutange, Bom Parto e parte do Farol.

"Esse movimento de expulsão de uma parcela da população de Maceió para municípios da região metropolitana já vem acontecendo. E o marco para que isso ocorresse foi o processo de subsidência do solo provocado pela Braskem. Quando analisamos os dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE, vemos que Maceió cresceu apenas 2,7%, enquanto Satuba cresceu 66,3%, Rio Largo cresceu 37,2% e Marechal Deodoro cresceu 31,3%."
O especialista destaca que com cerca de 15 mil famílias desalojadas e buscando reinserção no mercado de forma simultânea, bairros populosos como o Benedito Bentes viraram canteiros de obras de grandes empreiteiras e alvos fáceis de proprietários locais que inflacionaram preços sabendo do recebimento de indenizações por parte das vítimas.
O mercado imobiliário local rapidamente se aproveitou do fluxo de pessoas indenizadas ou beneficiadas por auxílios habitacionais da mineradora. "As pessoas aqui sabem que esses moradores vêm do desastre e que estão com algum tipo de recurso no momento, então jogam o preço lá em cima", aponta Josy.
O segundo vetor apontado por Cid Olival é o fenômeno global da plataforma digital Airbnb associado ao boom do turismo no período pós-pandemia. A capital alagoana registrou um fluxo intenso de visitantes, atraindo investidores que passaram a construir imóveis focados exclusivamente no aluguel por temporada.
"Esses imóveis têm características muito particulares: normalmente são construídos com apenas um dormitório. Vários edifícios novos têm predominantemente essa tipologia e estão localizados na parte baixa da cidade. No entanto, eles puxam a média geral e contribuem fortemente para a elevação do preço do metro quadrado em todo o município", explica o professor.l
Por fim, a dinâmica do mercado de Maceió responde diretamente à economia nacional. Segundo o economista, após um período de retração (2018 a 2022) no volume de recursos públicos voltados para a moradia popular, a partir de 2023 o Governo Federal promoveu uma recomposição do crédito habitacional para combater o déficit histórico do país.
Ele aponta que como uma das capitais beneficiadas por essa expansão de crédito, Maceió viu o mercado de construção civil reaquecer de forma acelerada, elevando o valor da terra e dos imóveis novos de ponta a ponta na cidade.
O custo diário do deslocamento e o vácuo do Plano Diretor
A combinação dessas três dinâmicas, sendo a remoção forçada de milhares de famílias, a febre das plataformas de hospedagem de curta temporada na parte baixa e a injeção de crédito habitacional, dita um ritmo de especulação imobiliária sem freios.
De acordo com o professor Olival, o problema é agravado pelo silêncio do poder público na regulação desse crescimento urbano.
"Uma das formas de minimizar essa questão seria a aprovação e implementação do Plano Diretor. Como nós sabemos, Maceió tem cerca de quase 10 anos que não faz a atualização do Plano Diretor, e isso tem feito com que o movimento de especulação imobiliária aconteça de forma indiscriminada", detalhou.
Para o especialista, sem essa ferramenta para ordenar o solo e proteger as zonas de interesse social, quem acaba pagando a conta mais cara são os trabalhadores de menor renda.
Empurrados para além das fronteiras de Maceió devido aos preços proibitivos, eles enfrentam o cansaço diário do transporte. "Isso agrava ainda mais as condições de vida e trabalho dessas pessoas, dados os deslocamentos diários que elas precisam realizar para poder desenvolver suas atividades", alerta o especialista.
Para quem está na ponta desse processo, como a estudante Josy, a teoria econômica se traduz em ansiedade real sobre onde deitar a cabeça no fim do dia.
O temor de perder o vínculo com a comunidade onde construiu sua história é o reflexo prático de uma cidade que encarece sem oferecer contrapartidas de bem-estar.
"Espero um dia conseguir o tão sonhado sonho da casa própria ou viver bem sem precisar me matar de trabalhar apenas para pagar moradia", conclui Josy.
