O lixo voltou a ocupar as esquinas de Maceió antes mesmo da passagem dos caminhões de coleta. Sacos plásticos espalhados pelas calçadas, resíduos acumulados por dias e reclamações de moradores se multiplicam nas redes sociais e em diferentes bairros da capital.
O que antes era uma queixa recorrente em grotas e áreas periféricas agora também atinge regiões centrais, como o Farol, onde moradores denunciam a redução da frequência da coleta.
Em alguns locais, segundo relatos da população, o caminhão que antes passava três vezes por semana agora realiza apenas uma coleta.
O resultado é um cenário que preocupa não apenas pelo aspecto urbano, mas também pelos impactos na saúde pública, na drenagem da cidade e na gestão de um dos serviços mais essenciais da administração municipal.
O momento também intensifica o debate sobre a execução e a fiscalização dos contratos de limpeza urbana.
Enquanto a população convive com o acúmulo de resíduos, cresce a cobrança por explicações sobre a regularidade dos pagamentos às empresas responsáveis pelo serviço e sobre a aplicação dos recursos públicos destinados ao setor.
No Legislativo Municipal, o vereador e ex-prefeito de Maceió Rui Palmeira afirmou, por meio das redes sociais, que uma das empresas responsáveis pela coleta informou existir um débito de aproximadamente R$ 45 milhões por parte do município.
O parlamentar questionou a condução financeira da administração e defendeu que a manutenção da limpeza urbana deve ser tratada como prioridade.
As manifestações da população também se concentram nas redes sociais, onde moradores publicam diariamente fotografias e vídeos mostrando ruas tomadas por sacos de lixo em diferentes bairros da capital.
Além do transtorno causado pelo mau cheiro e pela obstrução das calçadas, moradores relatam aumento na presença de ratos, baratas, escorpiões e outros animais peçonhentos próximos aos pontos de descarte, ampliando os riscos de acidentes e da proliferação de doenças.
Planejamento territorial e a base legal do saneamento
Para compreender a dimensão do problema, especialistas apontam que a limpeza urbana não depende apenas da circulação dos caminhões de coleta, mas de planejamento técnico permanente.
O arquiteto, urbanista e professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Dilson Ferreira, lembra que Maceió possui um Plano Municipal de Saneamento Básico, instituído pela Lei Municipal nº 6.755/2018, que estabelece diretrizes para todas as modalidades de limpeza urbana e prevê soluções específicas para áreas de maior complexidade geográfica, como grotas, encostas e vales.

"A limpeza urbana exige planejamento técnico e conhecimento do território; não pode ser baseada em improvisos", afirma.
Segundo o professor, a definição das rotas de coleta considera fatores como declividade das vias, densidade populacional, largura das ruas e condições de acesso para determinar o tipo de operação mais adequado, seja manual, mecanizada ou por veículos de maior porte.
Para ele, qualquer interrupção na regularidade do serviço compromete um planejamento previamente estabelecido e previsto na legislação municipal.
O reflexo do lixo na macrodrenagem e na saúde pública
Os impactos do acúmulo de resíduos vão além do desconforto causado à população.
Dilson Ferreira explica que, durante os períodos chuvosos, o lixo descartado nas ruas, encostas e grotas acaba sendo transportado pela água até bocas de lobo, galerias e canais, reduzindo a capacidade da rede de drenagem e aumentando significativamente o risco de alagamentos.
"O manejo inadequado dos resíduos interfere diretamente no funcionamento da macrodrenagem urbana", observa.
Na avaliação do urbanista, a limpeza urbana também representa uma política preventiva de saúde pública.
A interrupção da coleta favorece a proliferação de vetores responsáveis pela transmissão de doenças e amplia a demanda por atendimento nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e nos postos de saúde, especialmente entre crianças e idosos.
Fiscalização contratual e propostas de urbanismo social
Para o professor da UFAL, o desafio da limpeza urbana também passa pela fiscalização dos contratos firmados entre o município e as empresas responsáveis pela coleta e destinação dos resíduos.
Segundo ele, as metas estabelecidas nesses contratos precisam estar alinhadas ao diagnóstico previsto no Plano Municipal de Saneamento Básico e acompanhadas de mecanismos permanentes de transparência, permitindo o controle social sobre a qualidade da prestação do serviço.
Em Maceió, essa atribuição cabe à Autarquia Municipal de Desenvolvimento Sustentável e Limpeza Urbana (ALURB), responsável pelo acompanhamento da execução contratual e pela aplicação de eventuais penalidades.
Como alternativas estruturantes para as áreas periféricas, Dilson Ferreira defende políticas de urbanismo social voltadas à economia circular.
Entre as propostas estão a ampliação dos ecopontos em regiões críticas, a instalação de câmeras para combater o descarte irregular de resíduos e a criação de programas permanentes de capacitação e contratação de garis e agentes ambientais nas próprias comunidades, fortalecendo cooperativas de reciclagem e promovendo geração de emprego e renda.
Os milhões do saneamento
Enquanto moradores denunciam a redução da frequência da coleta e o acúmulo de lixo em diversos bairros, os registros do Portal da Transparência revelam que a limpeza urbana continua movimentando cifras milionárias na capital.
Levantamento realizado pelo CadaMinuto, com base nas liquidações registradas entre 1º de janeiro e 8 de julho de 2026, mostra milhões foram destinados às principais empresas responsáveis pela coleta, transporte e destinação final dos resíduos sólidos em Maceió.
Na operação da coleta e da varrição urbana, uma das principais contratadas é a Naturalle Tratamento de Resíduos Ltda., responsável por serviços como coleta domiciliar, varrição manual e mecanizada, limpeza de praias e recolhimento de resíduos públicos.
Durante o período analisado, a empresa recebeu liquidações de R$ 2.761.767,03 e R$ 2.740.568,53.
Outra operadora do sistema é a Via Ambiental Engenharia e Serviços S.A., responsável pela coleta domiciliar e seletiva, varrição, poda, limpeza de canais e outros serviços de engenharia ambiental.
Entre janeiro e julho deste ano, a empresa registrou liquidações de R$ 2.352.733,69, R$ 2.334.815,45 e R$ 2.245.058,11.
Após a coleta, todos os resíduos seguem para a SPE Maceió Ambiental S.A. (Ecoparque Maceió), concessionária responsável pela operação do aterro sanitário da capital e controlada, desde 2022, pela Orizon Valorização de Resíduos.
A empresa concentra o maior pagamento individual identificado no levantamento: uma liquidação de R$ 4.455.381,26, destinada à operação e ao tratamento final dos resíduos produzidos na cidade.
Os números evidenciam o elevado custo da limpeza urbana em Maceió e ampliam o debate sobre a efetividade da prestação do serviço diante das reclamações registradas pela população.
O contraste também aparece na comparação com os recursos destinados às cooperativas de reciclagem.
Entidades como a COOPVILA, a Cooperativa dos Recicladores de Alagoas e a Cooperativa de Trabalho dos Catadores receberam repasses de R$ 126.700,00 cada no período analisado, valor significativamente inferior ao destinado às grandes concessionárias responsáveis pela coleta e destinação final dos resíduos.