A recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que joga luz sobre o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e intensifica a atenção aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho, disparou um alerta no mercado corporativo. 

No entanto, o que deveria ser tratado como um avanço na organização dos negócios tem sido alvo de um "terrorismo corporativo" nas redes sociais, alimentado por consultorias de recursos humanos e de Saúde e Segurança do Trabalho (SST) interessadas em inflar a demanda por serviços complexos.

Para desmistificar o tema e mostrar que a adequação está ao alcance de qualquer micro, pequeno ou médio empresário alagoano, o CadaMinuto conversou com Cheops Augusto, especialista em SST desde 2012 e CEO da Bioproteção, empresa que atende cerca de 500 negócios em 90 cidades do Nordeste. 

Cheops Augusto, especialista em SST desde 2012 e CEO da Bioproteção


Segundo ele, o processo é muito mais simples do que o alarmismo do mercado faz parecer.

"O processo não é um bicho de sete cabeças; na realidade, ele é simples. Não há necessidade de contratar profissionais de psicologia ou criar estruturas mirabolantes. O próprio fornecedor de saúde e segurança do trabalho tem total capacidade de guiar o pequeno comércio ou microempresa aqui em Alagoas para se proteger", afirma Cheops.

O eSocial e a fiscalização invisível da Receita Federal

Historicamente, as pequenas empresas passavam ao largo das fiscalizações de segurança do trabalho porque o Brasil possui um déficit crônico de auditores-fiscais, fazendo com que o Estado focasse apenas em setores de altíssimo risco físico, como a construção civil pesada e a indústria.

O cenário mudou drasticamente com a consolidação do eSocial. O sistema digital unificou as obrigações e transformou a auditoria em um processo eletrônico, automático e implacável. 

Desde o momento em que um CNPJ contrata um único trabalhador sob o regime da CLT, ele passa a ser obrigado a cumprir as normas.

"O recado é claro: a partir do eSocial, se você não atende à saúde e segurança do trabalho, você vai ser penalizado automaticamente pelo sistema por deixar de cumprir uma obrigação acessória", alerta o especialista.

Cheops traz ainda o argumento que costuma causar mais espanto no empresariado: "Quem audita e fiscaliza o eSocial não é um órgão trabalhista comum, é a Receita Federal. Com ela não se brinca". 

Atualmente, dados cruciais como o ASO (Atestado de Saúde Ocupacional), descrições exatas de atividades e adicionais de insalubridade são monitorados digitalmente pelo fisco.

O 'escudo' jurídico: Como o ASO e atas simples protegem o CNPJ

Com o aumento da judicialização e de trabalhadores acionando a Justiça por danos morais decorrentes de transtornos mentais, as empresas precisam aprender a criar seus mecanismos de defesa. 

O especialista explica que a proteção deve nascer no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), passar pelo PCMSO (Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional) e se refletir diretamente no prontuário do trabalhador.

A grande virada de chave para o pequeno empresário está na documentação de rotina e na diferenciação entre o estresse gerado pelo trabalho e os problemas da vida pessoal do funcionário.

"O grande 'X' da questão é a empresa se munir de provas sobre situações e relatos do colaborador que envolvam transtornos não vinculados ao trabalho", explica Cheops.

Se um funcionário desabafa com o gestor sobre crises financeiras, ansiedade ou um divórcio que está afetando seu rendimento, a recomendação prática é acolher e registrar. 

"Escuta essa pessoa e faça uma ata simples do que foi conversado. Escreva em uma folha A4 os detalhes, colha a assinatura e arquive. Isso é um documento básico que serve de escudo jurídico para provar que a empresa não deu causa àquele esgotamento", orienta.

Passo a passo: O 'básico bem-feito' para começar hoje

Para os empreendedores locais que desejam regularizar suas operações sem custos astronômicos, o CEO da Bioproteção lista as ações prioritárias que o próprio empresário pode encabeçar:

 - Atualização documental: Possuir ou atualizar o PGR e o PCMSO da empresa;

- Estrutura interna: Implementar o "nomeado da CIPA" (para empresas menores que não exigem processo de votação);

- Canal de denúncias: Criar um canal interno para recebimento de queixas (focado em assédio) e divulgá-lo amplamente para a equipe;

- Políticas claras: Redigir códigos simples de ética, conduta e não corrupção que reflitam a verdadeira realidade e complexidade do negócio;

- Alinhamento com o time: Reunir a equipe para ler esses documentos, explicando de forma transparente o que é e o que não é assédio, registrando o momento em ata.

"O básico bem-feito resolve muito bem e protege o negócio. Ele pode ser tranquilamente construído pelo próprio empreendedor, bastando que ele tire alguns minutos da sua rotina para organizar e documentar a realidade da sua empresa", conclui Cheops Augusto.