Qual é o instante mágico em que escolhemos o time do coração, aquele pelo qual vamos torcer por toda a vida, sem admitir, nem de brincadeira, virar a casaca?
Pois é, não sei e duvido que você saiba a resposta, em sendo um torcedor. Por que um time, não outro, irmãos revivendo a sina de Caim e Abel por conta dos homens que chutam a pelota? Quanto mistério há nas nossas preferências clubísticas!
Como não podia ser diferente, eu já nasci regatiano, por obra e graça do seu Luiz Mota. Foi meu pai quem me levou ao estádio (aonde cheguei assustado e deslumbrado) pela primeira vez, e por lá eu o acompanhei em boa parte da vida que compartilhamos. Vibramos com o Galo, xingamos juízes, sofremos com os “azuis”, mas dividimos - ou somamos -, principalmente, a condição de torcedores do alvirrubro da Pajuçara. Tudo bem.
Mas como e por que me tornei uma ovelha tricolor habitando um ninho de vascaínos? Desconfio que foi por causa daquela fotografia da revista Placar, criada em 1970, que trazia os campeões cariocas de 1969 - e estes vestiam a camisa do Fluminense.
Lá estavam: Félix, Oliveira, Galhardo, Assis e Marco Antônio; Denílson e Didi; Cafuringa, Samarone, Flávio e Lula. Eles cederam os nomes e os rostos ao meu time de botão, que eu treinava com táticas específicas para cada adversário. (Meu pai chegou a ficar preocupado com a minha sanidade mental de adolescente me vendo treinar, horas a fio, com os meus botões.)
O São Paulo já foi uma descoberta da maturidade. Eu, como toda a minha geração, vibrava com o Santos de Pelé – era igual a torcer pela Seleção Brasileira. Mas o Rei se foi sem deixar herdeiro, e aquele amor de infância foi se esmaecendo até perder a cor. Caso raríssimo no futebol, eu comecei a torcer pra valer pelo tricolor do Morumbi por causa de um técnico, Telê Santana, cuja morte, há alguns anos, me comoveu como se fosse ele alguém próximo e muito querido. Telê foi um dos meus maiores ídolos do esporte, e ainda hoje eu vejo futebol pelos olhos do Mestre.
Com o tempo, descobri também que, para o torcedor, tão importante quanto o ídolo é o adversário a ser gozado. Se não houver ninguém para se "zoar" depois de uma vitória acachapante ou mirrada, de muito pouco ela terá valido. E isso faz parte, ainda, da alma brasileira.
Meu maior rival futebolístico já se foi: Fredão do Palmeiras, a quem eu perturbava sem tréguas, sempre que o seu Porco chafurdava na lama da derrota. Nem adiantava ele bater o telefone, que eu voltava à carga - como meu pai já fazia com o pai dele, seu Joaquim Farias (e vice-versa). Mas meu amigo palestrino, hei de reconhecer, era muito menos chato e insistente do que eu, como torcedor. Hoje lamento que ele não tenha podido acompanhar o seu Palmeira nos vitoriosos últimos anos, ainda que isso me custasse alguns lamentos e gozações.
Não há nisso qualquer relação com as gangues de hoje, que se apresentam como torcidas organizadas. Formadas, na maioria, por rebeldes sem causa - os novos bárbaros -, essas organizações violentas só afugentam os verdadeiros torcedores dos estádios. Futebol virou, praticamente, um espetáculo para se ver na TV. Lamento porque não esqueço do catártico encontro com a torcida! Hoje não dá mais - é correr risco até de morte.
Já não choro ao travesseiro as derrotas do meu time, mas ainda sinto aquele friozinho na barriga, o coração acelerar, quando assisto a uma partida de futebol. O meu filho Luiz, ao modo dele, também vibra e sofre com os nossos times (os mesmos meus, por mera coincidência, é claro).
Trago em minha memória de torcedor passagens inesquecíveis, de muita alegria e também da mais profunda tristeza. No dia em que o Brasil perdeu para a Itália na Copa de 1982, eu simplesmente não consegui dormir. A minha alma ficou de luto: foi a maior frustração futebolística que eu vivi (pode dizer: chorei).
O fato é que a minha vida teria perdido muita da sua graça se não houvesse o futebol. E por estranho que pareça, um gol de placa me dá a sensação de que me tornei ainda mais humano.
