"Nós derrubamos os muros de pedra dos antigos sanatórios de Alagoas, mas erguemos muros invisíveis que são tão violentos quanto os primeiros. Cuidar em liberdade virou um privilégio de quem mora na capital; no interior, o que vemos é um verdadeiro apagão estrutural."

O forte desabafo que abre esta reportagem é da terapeuta ocupacional, doutora pela USP e pró-reitora da Uncisal, Dra. Mara Cristina Ribeiro. 

Autora do estudo mais robusto sobre a trajetória da reforma psiquiátrica em Alagoas, a pesquisadora faz um alerta contundente ao CadaMinuto no rastro das mobilizações do último dia 18 de maio (Dia Nacional da Luta Antimanicomial): mais de duas décadas após a lei federal que tentou sepultar os manicômios no Brasil (Lei 10.216/2001), o estado falha em consolidar sua rede de assistência e empurra o paciente de volta à exclusão.

A realidade apontada pela especialista joga luz sobre um drama silencioso que afeta centenas de famílias alagoanas. Se por um lado Alagoas conseguiu extinguir o modelo dos grandes hospitais-colônia e sanatórios que isolavam o indivíduo da sociedade, por outro, o poder público ergueu barreiras burocráticas, financeiras e geográficas que perpetuam o sofrimento psíquico na invisibilidade.

Dra. Mara Cristina Ribeiro


O principal nó crítico diagnosticado pela pesquisadora está na violenta desigualdade regional da assistência. Enquanto Maceió e Arapiraca concentram os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e equipes multiprofissionais mais estruturadas — como o CAPS Casa Verde, gerido pela própria Uncisal —, os pequenos municípios alagoanos vivem um deserto de assistência.

Sem CAPS funcionando adequadamente e sem a fixação de psiquiatras, psicólogos e terapeutas ocupacionais no interior, o fardo do cuidado é transferido integralmente para as famílias, que operam no limite do esgotamento físico e emocional.

"Quando o Estado falha em estruturar a rede no interior, ele joga um fardo desumano nas costas das famílias", explica a Dra. Mara Cristina. "O resultado é cruel: por exaustão e falta de alternativa pública, as pessoas voltam a clamar pelo isolamento e pela internação de longo prazo. Alagoas corre o risco de retroceder ao modelo que violava direitos humanos por pura incompetência assistencial e falta de investimento."

Outro pilar fundamental da Reforma Psiquiátrica que patina em Alagoas é a criação de leitos de saúde mental em hospitais gerais. A legislação prevê que, em casos de crise aguda, o paciente deve ser internado em um hospital comum para estabilização rápida, evitando a transferência para instituições segregadoras. Na prática alagoana, contudo, as portas continuam fechadas.

"A Reforma Psiquiátrica não se resume aos CAPS. Ela exige uma rede ampla, que inclui leitos em hospitais gerais. Mas o que vemos em Alagoas é a persistência de práticas ainda marcadas pela lógica manicomial, onde a rede hospitalar tradicional resiste em abrir as portas para a saúde mental. Quando o hospital geral nega o leito, o preconceito institucional reativa a engrenagem da exclusão e do abandono todos os dias em nosso estado."

Além dos gargalos de orçamento e gestão, a matéria do CadaMinuto joga luz sobre o preconceito que dita as relações cotidianas nas ruas de Maceió e das cidades do interior. A intolerância social, segundo a especialista, funciona como uma camisa de força invisível.

Para a pró-reitora da Uncisal, a Luta Antimanicomial não pode ser tratada apenas como uma efeméride de calendário ou uma pauta restrita aos profissionais de saúde. Trata-se de um indicador do nível civilizatório e democrático do estado.

"Não dá para aceitar que a saúde mental em Alagoas seja tratada como uma política pública secundária ou que mude ao sabor de conveniências partidárias a cada troca de gestão. Não basta oferecer atendimento clínico de vez em quando; é necessário criar espaços de pertencimento nas ruas, nas praças, no trabalho. Cuidar em liberdade é um compromisso ético inegociável. Uma sociedade democrática se mede pela forma como cuida dos seus sujeitos mais vulnerabilizados, e Alagoas ainda está em débito com essa conta", conclui a Dra. Mara Cristina.