O cansaço que você sente ao final do expediente é apenas fruto de uma semana corrida ou o sinal de algo muito mais grave? No mercado de trabalho atual, marcado pela hiperconectividade e por cobranças cada vez mais agressivas, a linha que separa o estresse comum do colapso mental tornou-se perigosamente tênue.
Em Alagoas, os transtornos de ansiedade e a depressão já figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho, mas há um contingente ainda maior de profissionais que sofrem sem receber um diagnóstico: as vítimas do "Burnout silencioso".
Para lançar luz sobre esse fenômeno que corrói o bem-estar da população local, o CadaMinuto conversou com o médico psiquiatra Dr. Freddy Mundaka. Referência na área e fundador do Instituto Mundaka, o especialista desmistifica a ideia de que o esgotamento profissional sempre se manifesta por meio de uma crise dramática ou de um choro compulsivo.

"O Burnout moderno nem sempre aparece como crise", alerta o médico. "Muitas vezes ele vai surgir como irritabilidade constante, dificuldade de concentração, insônia, queda de performance, sensação de vazio e procrastinação. O profissional continua funcionando, mas vai perdendo energia, criatividade e a saúde mental aos poucos".
Os disfarces da rotina: do café à automedicação
Segundo Mundaka, um dos maiores perigos do cenário atual em Alagoas é a normalização de sintomas físicos induzidos pelo estresse crônico. Para conseguir dar conta das metas e responder a mensagens profissionais fora do horário de expediente, o trabalhador passa a adotar "muletas" químicas e comportamentais.
O abuso de cafeína para se manter desperto durante o dia, o uso do álcool para tentar "desligar" a mente à noite e a automedicação para conter dores de cabeça (cefaleias) ou alterações gastrointestinais constantes tornaram-se rotina nas empresas locais.
"Vivemos uma cultura de alta cobrança, uma hiperconectividade e pouca educação emocional", explica o psiquiatra. "O paciente chega ao consultório esgotado emocionalmente, com sintomas físicos importantes, mas sem perceber que o ambiente de trabalho se tornou o fator central do seu adoecimento".
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconhece o Burnout oficialmente como um fenômeno ocupacional. No entanto, a falta de informação faz com que muitos alagoanos encarem o esgotamento como uma falha pessoal ou "frescura", adiando a busca por ajuda médica e psicológica até que o corpo colapse definitivamente.
O perigo mora no topo: líderes também colapsam
O ecossistema de adoecimento nas organizações frequentemente começa de cima para baixo. O Dr. Freddy Mundaka destaca que diretores, gerentes e coordenadores sofrem uma pressão dupla: precisam entregar resultados financeiros agressivos enquanto tentam gerenciar crises humanas em suas equipes.
O resultado disso é um apagão na capacidade de gestão. A ciência comprova que o estresse crônico altera a biologia do cérebro, inundando o organismo com cortisol e afetando áreas ligadas à cognição.
"O primeiro ponto é entender que líder emocionalmente exausto toma decisões piores", enfatiza o especialista. "Hoje sabemos pelas neurociências que o sono ruim e o estresse crônico impactam diretamente a memória, a tomada de decisão, a inteligência emocional e a tolerância ao conflito".
Para quebrar esse ciclo, o médico defende que os gestores alagoanos precisam adotar com urgência "microestratégias de proteção" no cotidiano. Isso inclui estabelecer pausas reais durante o dia, praticar a higiene do sono, investir em atividades físicas e, fundamentalmente, criar uma cultura corporativa onde pedir ajuda não seja interpretado como um sinal de fraqueza.
"Cuidar da própria saúde mental não é um luxo, é uma estratégia operacional", crava.
Como mudar o cenário?
Mudar a engrenagem do adoecimento exige que as empresas parem de focar apenas em faturamento e passem a fazer um "diagnóstico humano" de seus ambientes. Ambientes com alta rotatividade de funcionários funcionam como um termômetro de que algo está errado na liderança ou na comunicação.
Ferramentas como o ecossistema MC 360, desenvolvido pelo especialista, buscam propor uma leitura precoce de riscos, oferecendo suporte contínuo antes que o sofrimento se transforme em um afastamento médico ou em crises severas dentro das equipes.
"O futuro das empresas não será mais decidido por tecnologia ou faturamento; será decidido também pela capacidade de cuidar das pessoas que sustentam o negócio", finaliza o Dr. Freddy Mundaka.
Fique alerta: Seu corpo está pedindo ajuda?
O Dr. Freddy Mundaka aponta os principais sinais de que o estresse profissional cruzou a linha da normalidade e caminha para o Burnout:
• Alterações Psicológicas: Irritabilidade constante com colegas ou familiares, sentimentos de vazio, desmotivação profunda e episódios frequentes de procrastinação.
• Sintomas Físicos: Insônia persistente (ou sono que não restaura a energia), dores de cabeça frequentes, tensão muscular e problemas gastrointestinais crônicos.
• Mudanças de Hábito: Necessidade de aumentar drasticamente o consumo de café ou energéticos para produzir, e dependência de bebidas alcoólicas ou calmantes para conseguir relaxar à noite.
