A eleição antes do eleitor

A eleição para o Governo de Alagoas começou. Embora ainda não ocupe a atenção cotidiana do eleitor comum, já mobiliza intensamente quem vive da leitura e da estrutura do poder. Nos bastidores, o tabuleiro se mexe: lideranças testam caminhos, grupos políticos reposicionam alianças, pré-candidaturas ocupam territórios.

Enquanto isso, longe da superfície visível da disputa, há uma ação tão ou mais importante em curso: o trabalho dos núcleos políticos e publicitários que tentam responder à pergunta central de toda campanha competitiva: o que está na cabeça dos alagoanos?

O sentido da eleição

Toda eleição precisa de uma pergunta. Às vezes, ela aparece com nitidez: continuar ou mudar? Em outras, surge embaralhada, atravessada por sentimentos contraditórios. O eleitor pode reconhecer entregas e, ainda assim, desejar novidade. Pode admirar uma gestão e, ao mesmo tempo, sentir cansaço de um grupo político. Pode gostar da ideia de mudança, mas recuar diante do medo do improviso.

É por isso que a disputa de 2026 não será apenas uma comparação entre trajetórias. Será uma disputa pela moldura do debate. Quem conseguir definir qual é a pergunta da eleição terá vantagem antes mesmo da resposta.

Se a eleição for lida como reação ao cansaço, a mudança ganha força. Se for lida como escolha por segurança e experiência, a continuidade encontra terreno. Se o sentimento dominante for uma mistura de reconhecimento e inquietação, o cenário se torna menos previsível e mais exigente para todos os campos.

Se a eleição for interpretada como reação ao cansaço, a mudança ganha força. Se prevalecer a busca por segurança e experiência, a continuidade encontra terreno. Mas, se o sentimento combinar reconhecimento e inquietação, o cenário fica mais difícil de prever. E assim sendo, o que fazer?

Renan e João. Dois nomes, dois campos simbólicos

JHC chega associado à capital, às redes, à comunicação direta e às entregas de grande visibilidade. Seu ativo inicial está na capacidade de transformar Maceió em vitrine e de falar com um eleitor acostumado a imagens rápidas, soluções reais e presença cotidiana. Lembremos: o performático também opera no concreto. Soa inocente achar que um gestor com quase 80% de aprovação não tenha respondido às necessidades reais ou, pelo pelo menos , cruciais e momentâneas da População.  

Renan Filho entra em outro campo. Carrega a experiência de quem governou o Estado, construiu indicadores, acumulou obras, elegeu-se senador e ajudou a formar o ciclo político que permanece no comando estadual há 12 anos. Seu ativo inicial está na memória de governo, na estrutura de alianças e na presença territorial.

Certamente, cada um sabe onde é forte e onde o sapato aperta. E, se por um lado, será preponderante conduzir o pleito para realçar as próprias qualidades e esconder deficiências, por outro, a disputa mais interessante estará, porém, no esforço de ocupar o território simbólico do outro. JHC precisará mostrar que renovação não significa falta de experiência.(As adesões de Lessa e Téo Vilela não são meros detalhes) Renan Filho precisará mostrar que experiência não significa repetição, e para isso será precisso renovação.  

As peças que ainda faltam

Há outras definições capazes de alterar o desenho da disputa. Além da formação dos palanques nacionais, será preciso observar se o sentimento local faz parte de uma lógica eleitoral mais ampla, que ultrapassa Alagoas e aparece em outros estados.  

Não muito longe, aqui no Nordeste, surgem disputas com formatos semelhantes: em Pernambuco, o jovem e performático João Campos, prefeito do Recife, diante de Raquel Lyra, governadora bem avaliada e já instalada no comando estadual; no Rio Grande do Norte, Alysson Bezerra, prefeito de Mossoró e fenômeno das redes, em contraste com a experiência e a estrutura política de Álvaro Dias; em Sergipe, o governador Fábio Mitidieri terá pela frente a força municipal e popular de Valmir de Francisquinho, prefeito de Itabaiana. Tanto cá como acolá, há sinais de uma mesma tensão: candidaturas associadas à mudança e à comunicação direta desafiam estruturas já consolidadas. Resta saber se esse sentimento de mudança será apenas combustível de largada ou força suficiente para decidir a chegada.

Voltando à Alagoas, cabe-nos indagar qual será o  comportamento de Arthur Lira e Alfredo Gaspar? Da mesma forma, Arapiraca aparece como uma variável central. Para onde Luciano Barbosa levará seu prestígio no Agreste? Essa pergunta talvez seja uma das mais importantes do tabuleiro. Mas esses pontos exigem outro texto.  

Por enquanto, basta observar que, enquanto o eleitor comum ainda está distante da eleição, as lideranças já fazem suas apostas. Prefeitos, deputados, grupos regionais e operadores políticos tentam antecipar o movimento da população. Eles não escolhem apenas por afinidade. Escolhem avaliando risco, força, tendência e, sobretudo,  possibilidade de vitória.

Antes da urna, o sentimento

Ao destacar o peso do sentimento eleitoral, não se está diminuindo a força das bases, das alianças e das estruturas políticas. Elas contam, e contam muito. Em Alagoas, 2022 ensinou isso com clareza. Estrutura, palanque, prefeitos, deputados, máquina partidária e tempo político continuam sendo peças decisivas.

Mas 2022 também deixou outra lição: a pré-campanha importa. A construção das personas, a definição dos arquétipos, a escolha dos temas, a previsão e gerenciamento das crises, o estudo das tendências e a capacidade de interpretar o humor social podem deslocar percepções antes mesmo de o eleitor declarar voto. É nesse intervalo, quando a eleição ainda não virou assunto de mesa de casa, que parte importante do jogo começa a ser decidida.

Está evidente que eleição de 2026 não será decidida pela fotografia inicial, mas pelas perguntas que conduzirão o caminho. Cansaço ou continuidade? Mudança ou segurança? Renovação ou experiência? Cada campo tentará impor a sua leitura sobre o que está em jogo.

Antes da urna, será preciso entender o sentimento, entender a pergunta, saber perguntar e capturar a resposta,  antes do oponente. Pesquisar, nesse contexto, é separar impressão de tendência, percebendo onde há convicção, onde há dúvida e onde ainda existe espaço para deslocamento. Porque, antes de aparecer na urna, toda eleição nasce em algum lugar menos visível. Em 2026, esse lugar passará por uma pergunta incontornável: o que está na cabeça dos alagoanos e alagoanas?  

*Diretor do Instituto Strategio Inteligência, pesquisa e Desenvolvimento