Antes de qualquer política pública, antes de qualquer votação em conselho universitário, havia um corpo. Uma travesti sentada numa sala de aula da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), interrompendo professores no meio da explicação para corrigir um pronome. Com voz firme. Sem pedir licença.
Diana Sereia foi essa pessoa.
E foi ela quem abriu uma porta que, nesta quinta-feira (7), a Ufal decidiu alargar: a Ufal aprovou a reserva de 2% das vagas para pessoas trans e travestis em todos os cursos, turnos e locais de oferta, a partir do processo seletivo de 2026.2.
A medida segue proposta da Comissão de Elaboração da Política Afirmativa para Acesso e Permanência de Pessoas Trans, à qual mais de 40 universidades federais já aderiram.
Mas na Ufal, a história dessa presença começa antes de qualquer resolução.
As primeiras no COS
Natural de Martibondo, no Agreste alagoano, Diana entrou no curso de Jornalismo em 2017 sem saber que estava construindo um caminho que outras pessoas caminhariam com mais segurança anos depois.

Ela só sabia que queria escrever. Que queria contar histórias. E que o jornalismo era o seu lugar. “Desde nova eu já sabia que eu gostaria de escrever, falar sobre pessoas, falar sobre situações com mais sensibilidade. Quando fiz o Enem, eu já tinha a completa certeza de que seria uma jornalista”, conta Diana.
No bloco de Comunicação Social (COS), ela e Glenda Melissa foram as primeiras travestis do curso. Duas existências num ambiente que ainda não tinha vocabulário para recebê-las — ao menos não o vocabulário correto.
A estratégia de Diana para sobreviver foi a imponência. Não por arrogância, ela faz questão de explicar, mas por necessidade.
“Eu sou muito imponente. E eu não falo isso com ego ou narcisismo. É um dispositivo de luta e segurança. Quando algum professor errava, eu parava a aula e dizia: ‘Olha, fulano não é assim mais, é assim’. E eles começaram a entender. Porque não tinha apenas eu, tinha Glenda também”, disparou.
Duas mulheres que, ao existir juntas, tornaram o erro indesculpável — e a correção, inevitável.
Diana se formou. Foi a primeira travesti a concluir a graduação em Jornalismo na Ufal. Uma conquista que ela descreve não com leveza, mas com o peso de quem sabe o que custou.
“Ser a primeira representa o quanto a minha luta foi válida. Embora tenha sido árdua, embora tenha me flagelado muito — valeu muito a pena. Porque eu construí um espaço de dignidade para nós dentro do COS”, afirmou.
As que vieram depois
O espaço que Diana construiu não ficou vazio. Hoje, os cursos de Teatro, Jornalismo, Relações Públicas, Ciências Sociais e outros já têm estudantes trans matriculados.
O cenário mudou — mas quem está dentro sabe que mudança e transformação são coisas diferentes.
Luna de Araújo está no quinto período de Jornalismo. Ela enxerga os avanços, mas recusa qualquer romantismo sobre o que ainda acontece no cotidiano das salas de aula.
“O preconceito ainda tá lá. De uma maneira muito mais indireta do que direta. Ainda há professores com dificuldade em acertar pronomes. Ainda há olhares — a pessoa sente, a pessoa sabe — mas que nunca chegaram a ser agressões diretas”, desabafa.
Luna conta que tem uma rede de apoio entre colegas de classe. Mas reconhece que há uma fronteira intransponível para quem não viveu na pele.
“Há coisas que só uma pessoa trans entenderia. E eu acabo guardando muita coisa para mim”, diz.
Além do peso emocional, ela aponta outro fardo invisível: a cobrança dobrada sobre competência. Trans e travestis, diz Luna, são avaliadas duas vezes mais que estudantes cisgêneros — na capacidade acadêmica, no desempenho profissional e até na aparência.
Para ela, a aprovação das cotas é necessária — e insuficiente ao mesmo tempo.
“As cotas são o primeiro passo. Mas ainda é apenas o começo de uma grande jornada nas políticas públicas da universidade. É um caminho ainda muito longo a se trilhar por uma sociedade que realmente nos veja como pessoas — que merecem ter os direitos garantidos, sobretudo o direito de simplesmente viver em paz”, ressalta Luna.
*Estagiaria sob supervisão da editoria
