A humanidade se repete tediosamente, sem criatividade, até nos preconceitos e suas representações.
Temos visto, e disso já tratamos aqui neste espaço, as manifestações racistas contra brasileiros – e não só nos estádios de futebol (Umberto Eco diz que a elite estabelece “as doutrinas do racismo, mas os pobres produzem sua prática”). A ofensa dominante é quase sempre a mesma:
- Macaco!
E até aí os racistas demonstram a sua ignorância, de gente tosca e tola: imitam um chimpanzé, grande primata que não existe aqui “do lado de baixo do Equador”, a não ser no cativeiro. E eu lamento por isso, confesso.
Detalhe: é assim, o racismo estúpido, nos países da América do Sul, onde os negros são uma presença marcante e definitiva, e também na Europa, com destaque para Portugal, país para onde muitos brasileiros migram em busca de segurança, principalmente - e alguns por pura arrogância de “alma europeia”.
A agressão é nova?
De jeito nenhum.
Nos anos que antecederam a independência do Brasil, muitos brasileiros, nativos ou adotivos, para louvar a nossa natureza e sua diversidade local, optaram por assumi-la na própria identidade, numa resposta à corte portuguesa que nos tratava com evidente preconceito e menosprezo.
E aí entrou a tão propalada criatividade brasileira. Por exemplo: o piloto José Maria Migués, num gesto de rebeldia e orgulho, pediu para ser chamado de “José Maria Migués Bentevi” (sic) - e passou a viver assoviando para o mundo dos homens.
Já o padre Pedro Antônio de Souza, da província das Alagoas, adotou outro provocativo nome: “Pedro Antônio Cabra-Bode”. E berrou para a tropa lusitana a sua nova identidade.
José Caetano de Mendonça envenenou suas relações com os representantes do despotismo português de então. Escreveu que seria “reconhecido de hoje em diante por José Caetano de Mendonça Jararaca”. E quem topou enfrentar a serpente?
E mais: Joaquim José da Silva, nascido em Portugal, declarou seu amor pela terra que o recebeu maravilhosamente registrando a sua firma como “Joaquim José da Silva Jacaré” - e abriu o bocão em direção à turma da terrinha.
É verdade: os grandes primatas – Chimpanzé, Gorila, Bonobo e Orangotango – não existem por aqui, não são endêmicos e/ou nativos das terras brasileiras. O que não me impede de admirá-los e até, se me permitem, invejá-los: pela inteligência (que falta aos racistas) e pela capacidade de viver (quase) em paz, coletivamente. Eles também, é verdade, têm os seus conflitos de poder, e quando o pau come num bando é de chamar “polícia e médico”. Fazemos pior, sempre.
Mas, cá para nós, o Brasil é o país que tem a maior diversidade de primatas – pequenos e médios – do planeta: são mais de 150 espécies e subespécies de macacos espalhadas pelas nossas matas, pintando e bordando na rica natureza, que ainda resiste apesar dos homens (com destaque para os preconceituosos e ignorantes).
Algumas espécies são exclusivas dessas bandas, caso do muriqui-do-norte (a maior delas), do macaco-prego-galego e dos quatro tipos de mico-leão: dourado, preto, mico-leão-da-cara-preta e mico-leão-da-cara-dourada.
Eu me satisfaria em acrescentar ao meu nome, em homenagem aos citados altivos brasileiros, apenas o “sobrenome” Mico-preto.
Perdoem-me a falta de modéstia.
