Foi muito prazeroso conviver com Sandoval Caju nos seus últimos anos de vida (ele morreu em 1994, aos 70 anos). Como todos os da minha geração, cresci ouvindo suas histórias, sempre muito engraçadas, que ressaltavam a sua agilidade de raciocínio e o humor ferino com que tratava seus adversários.

Quando o conheci pessoalmente, aí pelos anos de 1980, me deparei com um ser humano muito mais rico, com uma história de vida onde a tragédia e a dor não economizaram ao escrever a sua biografia. Para o vulgo, prevaleceu sempre a imagem do gozador, do piadista, de quem sempre cobravam histórias hilariantes, que já habitavam – e habitam – o folclore político e da comunicação de Alagoas.

Mas esta crônica não é sobre o personagem até hoje lembrado pela população. Felizmente, o Sandoval Caju de que me recordo com muito carinho vai além dos chistes - inesquecíveis de tão repetidos.

Lembro-me que, no final da década de 1980, eu propus a ele uma reportagem sobre as famosas praças que ele construiu ou reformou, destacando-o como o prefeito de Maceió que mais valorizou e respeitou o espaço público e de convívio social - que muitos acham desnecessário e “de fachada”.

Já haviam se passado mais de vinte anos desde que a ditadura militar havia cassado o seu mandato na capital,  por ele ter se tornado o governante mais querido e popular de Alagoas, superando todos os representantes dos fardados por essas bandas.

Qual não foi a minha surpresa ao me deparar com os moradores dos bairros do Vergel e da Ponta Grossa abraçando-o com um carinho inequívoco, como quem se depara e se toca num ídolo. Uma senhora, na Praça Moleque Namorador (Ponta Grossa), não se conteve e chorou abraçada ao “Prefeito”, como sempre o tratei. Estava ali uma obra icônica do Sandoval, construída por ele em 1961.

(Usando uma expressão do próprio, aquele era um espaço “pequeno, mas incendiário” - slogan do seu programa “Palito de Fósforo”, na Rádio Difusora).

O Sandoval Caju que passou a almoçar seguidamente, às sextas-feiras, na minha casa, já se tornara um amigo e confidente – no que era possível, considerando a nossa diferença de idade.  Aprendi muito rapidamente, sem que ele pedisse, que era preciso ouvi-lo e tratá-lo sem apelar para os seus enredos folclóricos.

Ele chegava ao prédio onde eu morava, sempre por volta do meio-dia, trajando camisa de manga comprida e paletó claro – de que não abria mão. No bolso, algumas balas (confeitos, como chamávamos) para dar a Camila, minha filha ainda bem menina, que adorava essas visitas quase semanais. 

Sandoval se encarregava de dar tema às conversas na mesa, onde sempre elogiava os dotes culinários de Tania, minha mulher. Não passava uma: era uma garfada e um elogio derramado. Sabedor do seu gosto pela comida nordestina, eu sempre providenciava uma boa carne do sol, de boi e de porco, e outros pratos da região. Era sucesso garantido. 

Um belo dia, Tania resolveu inovar: preparou um peixe no forno, que já conquistava os comensais pela aparência. Claro: tudo feito para o Sandoval. E não deu outra. O “homem” – expressão que ele usava muito – se desmanchou em exaltação ao prato do dia: 

- Nunca comi um peixe tão saboroso. Divino, dona Tania!

Claro que todos ficamos satisfeitos, e durante um bom tempo acreditamos na sincera manifestação do “Prefeito”.

Mas o tempo traiu o nosso querido Sandoval, desfazendo a doce ilusão. Esclareço desde já que o que aconteceu deu um tamanho ainda maior àquele amigo de cabeleira vasta, no estilo Castro Alves, uma das suas mais relevantes admirações.

Tempos depois, num restaurante, pedimos o cardápio, e eu logo sugeri um peixe, o que me parecia perfeito para ele e para mim, também. Eis que a verdade foi posta na mesa: 

- Peixe, não. Não gosto de jeito nenhum, além do que me dá uma azia danada. 

Fato é que, até hoje, Tania não tinha ideia da dura realidade: fora a gentileza do Sandoval que havia temperado aquele bicho dos mares, que o forno da minha casa tratara de dar cor e textura.

(Detalhe: ele bem que repetiu o prato.)