Em meio ao turbilhão de informações que marcou a tragédia no Japão, há quinze anos — terremoto, tsunami e o desastre nuclear de Fukushima —, um gesto chamou atenção pela sua raridade: o então primeiro-ministro Naoto Kan admitiu falhas na resposta ao colapso, pediu ajuda internacional e determinou a abertura de informações sobre as usinas nucleares.

Não foi um ato trivial. Foi responsabilidade.

O exemplo japonês, que foi marcante, entra aqui apenas ilustrando, mas o que está em questão é a dificuldade histórica de líderes reconhecerem erros — sobretudo na gestão da coisa pública. Persiste uma cultura autoritária que trata o erro como fraqueza, e não como parte do exercício do poder. Nela, admitir falhas equivale ao tolo raciocínio de perda de autoridade; por isso, opta-se pela blindagem, pelo silêncio ou pela transferência de responsabilidade.

O resultado é conhecido: erra-se mais ao tentar esconder o erro do que ao enfrentá-lo. Como já refletiu o senador Teotônio Vilela – o “Menestrel das Alagoas” -, “os governos temem errar — e erram ainda mais porque não ousam acertar”.

Não por acaso, consolidou-se a percepção de que  governantes raramente aprendem com seus próprios equívocos. Muitos sequer os reconhecem. No plano individual, o erro costuma ensinar. Na vida pública, porém, ele é frequentemente empurrado para o outro — para o adversário, para o Estado abstrato ou para o futuro.

Quem exerce poder não pode operar na lógica comum de fuga do erro, sobretudo no ambiente público. E erro com responsabilidade vira correção, confiança coletiva e amadurecimento institucional.

Se errar é condição humana, o gestor público falha duas vezes ao não admitir seus erros: primeiro, pelo equívoco em si; depois, pela recusa em corrigi-lo. Ao contrário do que muitos supõem, a transparência não fragiliza — ela aproxima, humaniza e pode gerar solidariedade social diante da crise. 

Há os que erram por convicção de que estão certos. Outros, mais graves, parecem incapazes de existir fora do erro que cultivam no isolamento do poder. Preferem a inércia e o desgaste contínuo a reconhecer o próprio limite. 

Na vida pública, erro não admitido não é sinal de força — é risco coletivo.

E aqui encerro com verso do Toquinho, na canção “Errar é humano”: “A vida irá, você vai ver / Aos poucos te ensinando / Que o certo você vai saber / Errando, errando, errando...”