Enquanto o mercado financeiro em Brasília revisa a projeção da inflação oficial para 4,71% em 2026, o reflexo desse número nas gôndolas e balcões de Maceió ganha contornos mais dramáticos.

O ajuste, divulgado pelo Boletim Focus e repercutido nacionalmente, sinaliza uma pressão que, em solo alagoano, é potencializada pelo chamado “Custo Maceió”.  

Segundo o economista alagoano e professor adjunto da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) Guilherme Lopes, a capital de Alagoas enfrenta uma estrutura de preços e logísticas que faz com que qualquer oscilação nos índices nacionais seja sentida com maior intensidade pela população local, especialmente, nos setores de serviços e alimentação.  

A explicação para esse fenômeno reside em uma combinação de dependência logística e o perfil da economia local. 

O economista destaca que como grande parte dos produtos da cesta básica consumidos em Maceió vem de outros estados, o custo do frete, impactado diretamente pela alta dos combustíveis, é repassado integralmente ao consumidor. Lopes destaca que, ao contrário de polos produtores, Maceió importa inflação através do transporte. 

Somando a isso, o setor de serviços, motor da economia turística da capital, sofre um efeito cascata: o aumento na conta de energia e nos insumos básicos força bares e restaurantes a reajustarem cardápios para manter a viabilidade, tornando o custo de vida na cidade um dos mais desafiadores do Nordeste.

Para o trabalhador alagoano, cuja renda média historicamente corre atrás dos grandes centros, o impacto de 4,71% não é apenas estatístico, mas uma barreira real à subsistência.

O economista reforça que, em Alagoas, o comprometimento do salário com itens essenciais como energia e comida é proporcionalmente maior, o que exige das famílias uma engenharia financeira constante.  

Diante da previsão de que os preços continuem subindo até o final do ano, a orientação técnica aponta para a necessidade de um consumo mais estratégico e atento, uma vez que o cenário local não dá sinais de arrefecimento imediato, mantendo Maceió no topo da lista das capitais onde viver custa, literalmente, cada vez mais caro.

Inflação de subsistência

Economista alagoano e professor adjunto da UFMT, Guilherme Lopes

 

Segundo o economista, o estado enfrenta o que ele classifica como uma "inflação de subsistência", onde os itens que mais sobem de preço, comida e energia, são justamente aqueles que ocupam quase a totalidade do orçamento das classes D e E.  

Enquanto famílias de maior renda conseguem absorver a alta cortando lazer ou luxos, para a parcela mais vulnerável da população maceioense, o aumento significa, na prática, a redução de itens básicos no prato.

Lopes ainda destaca que o fenômeno ocorre porque o grupo "Alimentação e Bebidas" tem um peso muito maior no índice inflacionário das famílias pobres. 

O especialista explica que, em Alagoas, a baixa renda média agrava esse cenário, já que qualquer reajuste no preço do arroz, do feijão ou do gás de cozinha compromete uma fatia maior do salário do que em regiões onde o poder de compra é mais elevado.  

A energia elétrica também surge como uma vilã central: sendo um custo fixo impossível de eliminar, os aumentos tarifários forçam essas famílias a realizarem escolhas drásticas, muitas vezes sacrificando a qualidade da alimentação para manter a luz acesa.

Para o economista, esse cenário gera um ciclo de perda de dignidade, onde a inflação atua como um "imposto invisível" que pune quem não tem margem de manobra financeira.  

Guilherme Lopes reforça que, sem políticas públicas de mitigação ou um controle mais rígido sobre os custos dos insumos básicos que chegam ao estado, a tendência é de um aumento na insegurança alimentar.  

O impacto de 4,71% em Alagoas, portanto, deixa de ser uma discussão técnica de mercado para se tornar uma questão de sobrevivência, evidenciando que a carestia no "Custo Maceió" tem rosto e endereço certo nas periferias e comunidades mais pobres do estado.