O debate sobre a definição de limites para cachês de artistas em eventos públicos voltou ao centro das discussões em Alagoas, especialmente com a proximidade dos festejos juninos. No entanto, além da preocupação com os gastos, um problema antigo tem ganhado força nos bastidores: a falta de valorização dos artistas locais nas programações do São João.
Com orçamentos cada vez mais direcionados para grandes atrações nacionais, o cenário que se repete em diversos municípios é de desequilíbrio. Enquanto poucos nomes concentram altos investimentos, artistas da terra enfrentam dificuldades para garantir espaço nas grades de programação, além de lidarem com cachês menores e, em alguns casos, atrasos nos pagamentos.
A situação não é recente, mas tem se tornado mais evidente diante das recentes movimentações de gestores públicos que discutem a criação de limites para contratações.
Para profissionais do setor, o problema vai além dos valores pagos.
Segundo empresários locais, a questão central está na forma como os recursos são distribuídos. “Não é apenas sobre quanto se paga, mas como esse pagamento é dividido. Existe uma distorção clara, onde o artista local não é priorizado, mesmo tendo qualidade”, afirmam.
A crítica também recai sobre a lógica de contratação adotada em muitos eventos. Artistas alagoanos, frequentemente, são incluídos como complemento nas programações, sem o mesmo destaque ou estrutura oferecida às atrações de fora. Além disso, relatos apontam que os atrasos nos pagamentos atingem com mais frequência os profissionais locais.
“Existe um discurso de valorização da cultura regional, mas na prática ainda há muita desigualdade. O artista local precisa disputar espaço dentro do próprio estado, muitas vezes em condições que não refletem o nível do seu trabalho”, acrescentam representantes do setor.
O impacto dessa dinâmica ultrapassa o campo cultural e atinge diretamente a economia.
Especialistas destacam que, quando os investimentos são direcionados para artistas de fora, grande parte dos recursos deixa o estado. Já a contratação de artistas locais contribui para a circulação interna de renda, beneficiando músicos, técnicos, produtores e toda a cadeia produtiva envolvida nos eventos.
Apesar disso, o fator econômico ainda tem pouco peso nas decisões sobre a composição das programações.
Diante do atual cenário, o debate sobre a limitação de cachês surge como uma oportunidade para reavaliar não apenas os valores, mas também o modelo adotado nas contratações públicas.
Nos bastidores, uma pergunta começa a ganhar força entre os profissionais da cultura: o São João em Alagoas está, de fato, valorizando quem constrói a identidade cultural do estado ou apenas priorizando atrações que já chegam com reconhecimento nacional?
