O imóvel perdido e o valor do acolhimento: quando a consultoria vai além dos honorários
Por Maherval Chaves e Silva
Ela perdeu o imóvel. E achava que não havia mais saída.
Ao longo da nossa trajetória profissional, prestamos muito mais do que um serviço. Oferecemos orientação, escuta e, muitas vezes, apoio em momentos decisivos. Diante disso, surge sempre um questionamento: consultoria precisa ser cobrada?
Nem tudo envolve dinheiro. Há situações em que servir ao próximo é maior do que qualquer honorário. Quem nunca recebeu uma ligação pedindo socorro, mesmo sem qualquer compromisso financeiro inicial? Faz parte da essência humana.
O corretor enxerga com a razão: investimento, segurança, estratégia. Já o cliente, muitas vezes, decide pela emoção — e é justamente aí que moram os riscos. É nesse ponto que entra a experiência, a responsabilidade e a ética. Não como um “salvador da pátria”, mas como alguém preparado para evitar que decisões precipitadas comprometam um patrimônio construído com esforço de uma vida toda.
O chamado da angústia
Eram quase 22 horas quando recebi a ligação de uma amiga. Ela perguntava se eu poderia conversar com uma senhora. Nunca fui de negar uma conversa, principalmente quando percebo que alguém precisa de ajuda imediata.
Atendi. Do outro lado da linha, a voz carregava angústia, vergonha e arrependimento.
Ela me contou sua história: tinha um apartamento quitado, mas decidiu vendê-lo para comprar outro de maior valor, financiando a diferença. O plano não saiu como esperado e ela não conseguiu manter os pagamentos. O imóvel foi retomado pela Caixa.
Naquele momento, antes de qualquer análise técnica ou jurídica, percebi que ela precisava de algo mais urgente: acolhimento.
O primeiro passo: o perdão
Disse a ela: "Vamos começar pelo perdão. Você está se culpando, se martirizando. Todos nós erramos. Mas, curiosamente, conseguimos perdoar os outros com muito mais facilidade do que a nós mesmos. Perdoe-se."
Houve um longo silêncio. E, em seguida, uma resposta que me marcou profundamente: “Era exatamente isso que eu precisava ouvir. O senhor acabou de tirar um peso enorme das minhas costas.”
A partir dali, conseguimos avançar. Expliquei que o próximo passo seria entender a real situação junto ao banco: possibilidades de negociação, prazos e alternativas legais. Quando estamos fragilizados, a clareza desaparece. Alguém precisa ajudar a reorganizar o caminho.
Ela ainda questionou: “Mas o que o senhor quer dizer com tudo isso? Eu não tenho dinheiro. Não vejo saída.”
Pedi apenas que descansasse. No dia seguinte, conversaríamos com a calma necessária. E havia, sim, uma saída. Mas era preciso agir rápido.
A estratégia da preservação
A estratégia foi clara: vender o imóvel antes que a situação se agravasse (como um leilão iminente). Era preciso avaliar o mercado, entender a valorização e buscar uma forma de reduzir o prejuízo.
Conseguimos uma abertura de negociação com a Caixa. Como corretor, fui em busca de alternativas, clientes e cenários viáveis. A única saída real era a venda rápida. E conseguimos. Em menos de 30 dias, o imóvel foi vendido.
Quem conhece o mercado imobiliário sabe que ele é cheio de variáveis. Mas também sabe que, para determinados imóveis, sempre existe demanda — desde que haja estratégia, preço correto e ação no tempo certo.
O problema foi resolvido. A cliente recuperou parte do que poderia ter perdido completamente. Quanto aos honorários? Houve negociação, mas naquele momento prevaleceu algo maior: a humanidade. Era um pedido de socorro, e eu acredito na gratidão e nas oportunidades que a vida nos dá para fazer o bem.
O papel do profissional de confiança
Compartilho essa história por um motivo maior: conscientização.
Não espere o limite: Não deixe que um financiamento avance para leilão sem buscar alternativas.
Busque informação: Não permita que um imóvel seja perdido por falta de conhecimento técnico ou decisão tardia.
Prevenção é o melhor caminho: Assim como buscamos um médico ao primeiro sinal de dor, o mesmo deve ocorrer com decisões patrimoniais.
Um bom corretor não está ali apenas para "vender". Ele está ali para orientar, antecipar problemas e encontrar soluções onde outros veem apenas portas fechadas. Muitos profissionais vivem essa atividade com propósito e envolvimento.
No fim das contas, o corretor de imóveis não negocia apenas tijolos e argamassa. Em muitos casos, ele evita que você perca tudo. A decisão de buscar ajuda está nas mãos de quem precisa, mas a diferença entre o prejuízo total e a preservação do patrimônio está em agir no momento certo — com o profissional certo.
Maherval Chaves de Mesquita Silva Corretor de Imóveis e Consultor Jurídico E-mail: [email protected] Fone/WhatsApp: (82) 9 9948-4391 Instagram: @maherval.ativosimoveis
