Há quem acredite que o maior inimigo do socialismo seja o capitalismo. Mas isso é um grande engano. O verdadeiro incômodo, o que realmente fere os herdeiros da revolução francesa, é a realidade, nua, crua e implacável. Mais precisamente, a fisicalidade da natureza — esse lembrete constante de que a vida exige esforço, sacrifício, movimento. Nem que seja o de inclinar a cabeça para contemplar as estrelas.

 

Desde que o mundo é mundo, viver é complexo e custa caro. Dizem por aí que o caos e a inconstância são o estado natural das coisas, não o contrário. Existir nessa vida terrena custa suor, energia, sacrifício. Desde o neolítico: para comer, é preciso caçar. Para se abrigar, é preciso construir. Não é uma imposição do patrão, do mercado ou da sociedade. É a natureza em sua crueza inegociável. Como escreveu Ludwig von Mises: “A natureza não dá nada de graça; para obter o que precisamos, devemos trabalhar.” E, diante dela, todos somos iguais: se não agirmos, perecemos.

 

O liberal, ainda que criticado e divergente em alguns pontos do conservador, ao menos é coerente. Quando diz que imposto é roubo, aponta para o uso explícito da força: o Estado toma, sob ameaça, o que é seu. Isso sim é coerção. O Aurélio não nos deixa mentir. Já o comunista quer ir além: chama de escravidão o simples fato de que, se não trabalhar, você morre de fome.

 

Mas quem obriga? A quem se deve a sentença? A ninguém, exceto à própria condição humana. Não é o patrão quem te persegue. Você pode pedir demissão, mudar de vida, buscar outro rumo. Já o Estado, esse sim, impõe — nos muitos tributos e regras a serem honradas. Cobra, pune, tolhe, toma, cobra novamente — mesmo que você discorde.

 

No fundo, o problema do socialista – eufemismo para comunista — não é com o sistema natural de trocas voluntárias de bens e serviços, mas com a sua existência. Ele recusa aceitar que o mundo é escasso e que a sobrevivência exige esforço contínuo. Em vez disso, sonha com uma utopia que distribua conforto sem trabalho, igualdade sem mérito, abundância sem sacrifício. Thomas Sowell já advertia: “Não há soluções ideais; há apenas trocas.” Mas o utópico não quer escolher — quer apenas receber — sabemos bem a que custo.

 

A natureza, essa senhora silenciosa, não cede a decretos. Ela ignora teorias e revoluções para mentes infantilizadas que se recusam a abandonar o útero materno. E segue, implacável, lembrando aos homens que a liberdade só floresce onde há responsabilidade e propriedade. Nenhuma ideologia pode apagar essa verdade ou negá-la. E sim: a fisicalidade da natureza não liga para nossos sentimentos.

*Jornalista