Fermina Daza e Florentino Ariza, personagens de “O Amor nos Tempos do Cólera" (Gabriel García Márquez), não viveram uma história comum, na vida ou na literatura. Talvez por isso, ao ser lançado pelo Nobel colombiano, o livro tenha, rapidamente, virado objeto do desejo de leitores pelo mundo inteiro.
Gabo trouxe para suas páginas o amor entre o homem e uma mulher no que hoje se chama de terceira idade, período da existência humana em que este sentimento só é admitido para a descendência. É verdade: embalou as fantasias de muitos que haviam deixado para trás – mas nem tanto – uma paixão de juventude.
Sem o mesmo alvoroço, “Elza e Fred”, do argentino Marcos Carnevale, apresenta idêntico frescor de novidade, e com uma exata pitada de humor, a verossímil possibilidade de um encontro ainda que ele pareça improvável. Um filme para se rever, de quando em vez.
Assim como “As Pontes de Madison”, de Clint Eastwood (que fez maravilhas com a sétima arte), que divide a tela, todo o tempo, quase, com a excepcional Meryl Streep. Se é possível uma paixão na maturidade? A arte jura que sim.
O fato é que – e agora chego aonde pretendem estas linhas – a mulher de meia-idade (?) não parece ser uma das musas preferenciais de poetas, romancistas, cineastas e compositores. Uma versão de “Garota de Ipanema” para elas? Impensável. Principalmente no universo masculino, a beleza da mulher está associada sempre – ou quase - à juventude.
Bobagem!
Sim, parecem mais evidentes os sinais que a vida vai marcando, para o “grande público”, no corpo feminino: as rugas, uma estria aqui, uma celulite acolá, e temos contada boa parte da trajetória daquela que as carrega. Mas há de se enxergar com os olhos de quem sabe navegar com o tempo, e não com a saudade da juventude que já se foi. E quanta beleza há nisso!
Machado de Assis fez desmoronar um dos preconceitos mais tolos que carreguei na vida de jovem adulto: considerar o conto uma manifestação menor da literatura. “Uma Senhora”, pequeno escrito de algumas poucas páginas, traz o refinado estilo, de poesia e ironia, do Bruxo do Cosme Velho. Narra a história de uma bela mulher, Camila (nome da minha filhota), que resiste à passagem do tempo. Mas com muita dignidade, nos assegura, logo de entrada, Machado:
- Ela era daquela casta de mulheres que riem do sol e dos almanaques... Inalterável, deixava às outras o trabalho de envelhecer.
Segue contando a relação da personagem com o calendário:
- Mas, ai triste! Há um limite para tudo, mesmo os vinte e nove anos. Eles ainda instaram por uns cinco ou seis meses de quebra; a bela dama respondeu-lhes que era impossível e, trepando no alazão do tempo, foi alojar-se na casa dos trinta.
E como é veloz o trotar do imaginário animal! O primeiro cabelo branco? “Um telegrama da velhice, que aí vinha em marchas forçadas”. Ela tratou de extraí-lo, na esperança de uma definitiva despedida. Entretanto, “se os remorsos voltam, por que não hão de voltar os cabelos brancos?”
A resposta, todos bem sabemos – ou devemos aprender. Camila o fez imaginando que “a beleza, que lhe suprira a mocidade, parecia-lhes prestes a ir também, como uma pomba sai em busca de outra”. Mas seria apenas “aquela beleza”, que passa com a mesma velocidade da vida. Para o bem da história de Machado e da dignidade da bela mulher, não havia, então, o estica-e-puxa-e-incha dos atuais dias (que coisas eles “conseguem” fazer!). Eis que surgiu, pois, a beleza limpa e honesta de Camila. Com o desfecho primoroso do nosso maior escritor:
- Só a beleza intelectual é superior. A beleza física é irmã da paisagem.
Para aqueles que não conseguem dissociar beleza física da juventude - mesmo que artificial -, deixo, aqui, umas quadrinhas que cometi já há algum tempo:
Perguntei à flor inda no pé
Se a beleza anda sozinha
Se tem nome de mulher
Se destino de andorinha.
Ela só me disse assim:
- A beleza é um mau conselho
E se parece não ter fim
É porque muda de espelho.
(Porque hoje é domingo.)








