Quando tocava "Pastorinhas", a madrugada já ia alta, anunciando que o baile de carnaval se aproximava do fim. Era um gosto antecipado de saudade na alma, e íamos girando o salão calmamente, bem devagar - de alguma forma, em estado de paixão. A marcha-rancho de Braguinha, que nasceu "Linda Pequena", em 1938, era a minha preferida em todos os "tríduos momescos", como se referiam aos carnavais os locutores de voz empostada e grave. 

E já havia o clássico "Máscara Negra", do grande Zé Kéti (e olha que vivíamos a dura década de 1970). Chegávamos sempre ao baile embalados pelo clima da festa mais popular do Brasil, depois de pintarmos o sete, literalmente, no corso da praia da Avenida. Lamento, mas não faz parte das minhas lembranças o mela-mela musical na Rua do Comércio, de que só ouvira meus pais a comentar, saudosos.

Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, foi nome e sobrenome do carnaval brasileiro desde os anos de 1930, seguindo por décadas a tornar inesquecíveis suas marchinhas. Filho de classe média da Vila Isabel (Rio de Janeiro, nascido em 1907), tornou-se João de Barro quando se decidiu pela profissionalização. Seu grupo Flor do Tempo já se tornara conhecido na capital do país, mas virou o Bando de Tangarás assim que a música virou coisa séria. Ali, teve a ilustre companhia de Noel Rosa, com quem compôs "Pastorinhas". Depois, foi um sucesso seguindo o outro - todos lembrados até hoje pelos que gostam das marchas carnavalescas de salão, que se não são mais tocadas, na época em que surgiram, viraram sucesso estrondoso nas rádios e nas ruas. 

Desde que estreou com "Antonha" (1930), na voz de Almirante, Braguinha caiu na boca do povo, conquistando-lhe o coração. Com letras fáceis, carregadas de singela poesia, o compositor não parou mais de levar a vida no bico - compunha assoviando, o que só ressaltava o seu talento (foram mais de 500 músicas). "Linda lourinha" e "Andorinha só não faz verão", ambas com Lamartine Babo, estouraram em 1934; "Balancê", com Alberto Ribeiro, de 1937, fez sucesso também em 1979, na voz de Gal Costa; "Pirata da perna de pau", 1947, foi parceria com Alberto Ribeiro, assim como "Chiquita Bacana", de 1949. Esquecê-las, entre os que viveram os carnavais de salão, quem há de?

Mas nem só de carnaval viveu o homem. Parceiro de Charles Chaplin em "Smile" ("Sorri", que Djavan e Renato Braz interpretam magnificamente), João de Barro ainda teve tempo para compor, por exemplo, "Copacabana" (com o fiel Alberto Ribeiro), que Dick Farney, dono da voz mais elegante do Brasil, eternizou. 

Só isso? 

Nada disso! 

Braguinha fez adaptações de histórias infantis (Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e outras), que venderam mais de cinco milhões de cópias até 1976. Incansável, escreveu músicas e roteiros de filmes nacionais, quando as chanchadas lotavam as salas de cinema em todo o país.

O momento mágico que viveu, no entanto, de fazer inveja a qualquer grande compositor, aconteceu num estádio de futebol. E não era qualquer um: o Maracanã, "o maior do mundo", foi o seu palco naquele ano de 1950. A Copa do Mundo era o assunto de todas as horas, e o Brasil de Ademir Menezes, o grande favorito. A torcida em peso a cantar "Touradas em Madrid" (de novo com Alberto Ribeiro, em 1938), embalava as vitórias do selecionado nacional. Do fim dessa disputa, nem é bom lembrar. Inesquecível, porém, a consagração do artista João de Barro.

Creio que a garotada de agora curte suas canções de carnaval (?), com a mesma emoção que nos embalava em tempos passados. Porque a vida é assim – e não existe uma alegria “melhor” do que outra. 

Mas, cá para nós, quem teria sido aquela "morena da cor de Madalena"? Acho que ela foi muitas, tantas quanto a imaginação humana permitir. O que não me sai da lembrança, mesmo, são "os lindos versos de amor" com que Braguinha a eternizou.