Para além de integrar o país, o Rio São Francisco possui uma história com cada cidade que o margeia. Um dos seus atrativos são os cânions localizados entre Sergipe e Alagoas. A cidade de Olho D’Água do Casado é um dos portais do lado alagoano para o complexo rochoso e é um exemplo de cidade que vem investindo em estratégias de promoção turística. Na segunda reportagem da série sobre a interiorização do turismo alagoano, o Movimento Econômico mostra como estão fortalecendo suas identidades locais e criando rotas próprias para impulsionar o turismo como alternativa econômica e vetor de valorização cultural.

Com mais de 65 quilômetros de extensão e 170 metros de profundidade, o complexo rochoso que compõe os cânions do São Francisco já foram cenário de novelas e filmes que retratam a identidade sertaneja.

É ele também que movimenta o turismo nas cidades ribeirinhas, que apostam nas belas paisagens para atrair visitantes. A cidade de Olho D’Água do Casado, a principal porta de entrada para os cânions em Alagoas, também vem desenvolvendo estratégias para oferecer fortalecer a imagem da cidade como acesso principal ao atrativo, além de estruturar seu complexo arqueológico, um dos maiores da região. As Secretarias de Comunicação e Turismo vêm atuando de forma conjunta em diversas ações de promoção do destino.

A secretária de Comunicação de Olho D’Água do Casado, Anne Cavalcante, avaliou como uma parceria importante o trabalho que vem sendo realizado em conjunto com a pasta do turismo para promover a cidade como rota turística.

“Quando a Comunicação se junta com o setor da cultura e o turismo, não estamos apenas organizando eventos; estamos construindo vitrines para a identidade de um povo. O sucesso dessa parceria e dos nossos eventos mostra que estamos no caminho certo. Nossa cidade está, a cada dia, mais visível no cenário do turismo nacional e internacional. Quem nos visita não apenas conhece um lugar, mas se encanta e se emociona. Temos uma natureza mágica, quase uma exortação à beleza do sertão, unida a uma história rica e uma cultura pulsante que corre nas veias do povo Casadense. Temos o privilégio geográfico de sermos banhados pelo Rio São Francisco e a honra de abrigar o principal equipamento turístico do Alto Sertão Alagoano: os Cânions do São Francisco. É essa combinação de infraestrutura, belezas naturais e o calor do povo Casadense, que faz de Olho d’Água do Casado um destino único e inesquecível”, afirmou.

Pôr do Sol nos Cânions do São Francisco é opção de turismo partindo de Olho D'Água do Casado, Alagoas

Pôr do Sol nos Cânions do São Francisco é opção de turismo partindo de Olho D’Água do Casado, Alagoas. Foto: Girlânio Lima

Em entrevista ao Movimento Econômico, a secretária de Turismo do município, Rose Gonçalves, contou que nos últimos anos a gestão vem investindo em estruturar a orla da cidade e oferecer estrutura para os turistas que visitam a região. A plataforma de embarque recebe lanchas e catamarãs com visitantes de diferentes cidades, inclusive de Piranhas e Delmiro Gouveia, que utilizam a estrutura casadense para iniciar os passeios.

Mas o município quer ir além do rio. Com uma gestão voltada para o turismo como ferramenta de desenvolvimento, Olho d’Água tem investido na requalificação urbana e na diversificação da oferta de experiências. “A prefeitura criou o Conselho Municipal de Turismo, implantou um fundo específico para a área e tem trabalhado com foco em turismo de base comunitária, que valoriza os saberes locais e o protagonismo da população”, explicou Rose.

Sítio Arqueológico Nova Esperança, em Olho D'Água do Casado, vem sendo trabalhado como atrativo para turismo sustentável

Sítio Arqueológico Nova Esperança, em Olho D’Água do Casado, vem sendo trabalhado como atrativo para turismo sustentável. Foto: Girlânio Lima

Um dos destaques é o Complexo Arqueológico Nova Esperança, onde já foram identificados 47 sítios arqueológicos, dos quais 20 estão preparados para visitação com apoio técnico do Iphan. Trilhas ecológicas como o Caminho da Macambira, o Abrigo do Podinho e o Caminho das Águas conduzem os visitantes por paisagens naturais.  As pinturas e gravuras retratam o cotidiano de povos ancestrais, com datações estimadas em cerca de 8 a 9 mil anos.

Ao final do percurso, a experiência se completa com gastronomia agroecológica preparada por moradores da comunidade e atividades educativas como a pintura em cerâmica, que resgata elementos vistos durante a trilha. Também é possível comprar produtos produzidos pela comunidade, vendidos em uma loja que fica dentro do complexo arqueológico.

Sítio Arqueológico Nova Esperança, Olho D'Água do Casado, Alagoas

Foto: Girlânio Lima

Produtos loja Sítio Arqueológico Nova Esperança, Olho D'Água do Casado, Alagoas

Foto: Girlânio Lima

Produtos loja Sítio Arqueológico Nova Esperança, Olho D'Água do Casado, Alagoas

Foto: Girlânio Lima

Pinturas rupestres no Sítio Arqueológico Nova Esperança, em Olho D'Água do Casado, Alagoas

Pinturas rupestres de mais de 8 mil anos são atração de turismo em Olho D’Água do Casado. Foto: Girlânio Lima

A rede de turismo comunitário também inclui hospedagem em casas de moradores, feiras de artesanato com peças em madeira, couro, crochê e bordado livre, além da produção de mel e eventos de contemplação, como o piquenique ao pôr do sol no espaço Toar, às margens do Velho Chico. “Estamos estruturando uma lei municipal para fortalecer o turismo de base comunitária. A ideia é garantir apoio financeiro, reconhecer os saberes tradicionais e ampliar a permanência dos visitantes no município”, explica a secretária de Turismo.

A proposta é que o visitante não apenas passe por Olho d’Água, mas permaneça, vivencie o lugar, conheça a cultura local e leve consigo mais do que imagens dos cânions, mas também uma nova percepção sobre o Sertão e seu povo.

“Durante muito tempo, Olho d’Água foi apenas o ponto de embarque, somos o portal de acesso aos cânions em Alagoas, mas hoje queremos mostrar que temos muito mais a oferecer. Estamos estruturando um destino que valoriza o nosso território, a nossa história, o modo de vida do povo ribeirinho. O turismo aqui não é só o passeio de barco: é a trilha, a cerâmica, a comida feita com o que plantamos, o pôr do sol que emociona. Queremos que quem chega, permaneça. Que viva o Sertão de verdade”, completou Rose Gonçalves.

Cidade de Traipu, Alagoas

Equipada com mirante, píer e áreas instagramáveis, a orla de Traipu passou a atrair moradores e visitantes. Foto: Eduardo Dewis

Traipu aposta na requalificação e cultura para valorizar o turismo no Sertão

Banho de rio, quiosques na orla, praças com acessibilidade, shows populares e áreas para fotos com o pôr do sol ao fundo. Traipu tem investido em um pacote de ações que transformou a paisagem urbana e começou a reposicionar o município como destino turístico na região do Baixo São Francisco.

A gestão municipal reconstruiu a orla da cidade com apoio do governo do estado, criando espaços de convivência equipados com mirante, píer e áreas instagramáveis que passaram a atrair moradores e visitantes. Uma nova fase da obra entregou mais um trecho da orla com um píer extenso, permitindo o acesso ao rio e ampliando o potencial do turismo no pôr do sol na cidade.

Traipu Alagoas

Gestão de Traipu requalificou a orla municipal e vem apostando em desenvolver pontos voltados para o turismo na cidade.

 Foto: Eduardo Dewis

A ideia é criar um ambiente onde o turista possa se sentir acolhido, com estrutura para banho, segurança e lazer, tudo em diálogo com a paisagem ribeirinha”, afirmou a prefeitura em nota.

A cidade também tem inovado. Um dos diferenciais é a implantação de pontos de recarga para carros elétricos na área da orla, permitindo que turistas que utilizam esse tipo de veículo possam recarregar enquanto aproveitam o rio. Ao mesmo tempo, a prefeitura estruturou a área de banho com presença de guarda-vidas, garantiu acessibilidade em espaços públicos e está ampliando os pontos de venda de artesanato e produtos locais.

Embora venham se destacando por iniciativas próprias e investimentos locais, municípios como Olho d’Água do Casado e Traipu ainda enfrentam desafios significativos para se consolidar como destinos turísticos reconhecidos fora de Alagoas. A principal dificuldade é a visibilidade diante dos grandes polos turísticos, o que muitas vezes faz com que atrativos desses municípios sejam associados a cidades vizinhas, reduzindo o protagonismo dos territórios onde de fato estão localizados.

Beco da Alegria, Traipu Alagoas

Beco da Alegria reúne espaço com vista para o Rio São Francisco e é opção para conhecer em Traipu. Foto: Eduardo Dewis

Mesmo com essas dificuldades, a movimentação já em curso demonstra que esses municípios estão criando caminhos próprios para o desenvolvimento do turismo, com base em identidade local, planejamento urbano e fortalecimento comunitário. A permanência dos visitantes, a diversificação dos atrativos e a conexão com operadores de turismo são os próximos passos desse processo.

Na próxima reportagem da série, o Movimento Econômico vai mostrar como a gestão pública vêm atuando na estruturação dos destinos emergentes, explicando quais critérios definem o apoio institucional e como os municípios podem se inserir de forma mais efetiva nas estratégias de promoção do turismo estadual.