A concessão do Honoris Causa, criada na Idade Média e tão banalizada atualmente, foi o que lhe trouxe a Maceió em 2010. No seu caso em particular a homenagem foi justa, justíssima. Basta observar sua atuação em prol das artes, da filosofia, das letras, dramaturgia, dos causos tão bem contados, seu humor sutil e do melhor entendimento entre as vítimas da ignorância. Já tivemos – e não é de hoje – chefes de estado que glamorizam não só ela – a ignorância – mas também a miséria; porque uma coisa é você não negar suas origens, outra coisa é você romantizar a ausência absoluta de dignidade. No Brasil do oportunismo sociopolítico é assim: colocam na cabeça do pobre coitado que ele tem que ter orgulho de ser favelado e de viver na favela, lugar onde quase tudo lhe falta.

Os gênios do seculo XX estão partindo para a eternidade, e não há quem os substituam. Para quem ainda não me conhece, saiba que sou cristão e, portanto, acredito na transcendência da alma. O mundo já nos mimoseia com demasiado caos para vivermos alheio a ela. Até acho que este fenômeno guarda em si uma espécie de tolice natural, que é distinto do tolo fabricado, como aqueles de Horkheimer, Adorno, Mercuse e tantos outros teóricos do mesmo seculo que fora citado no início deste parágrafo.

O humor está deixando de sê-lo para se tornar agressão. Pura e melancólica agressão. Não há mais humoristas no Brasil que respeite a sutiliza. Acho, particularmente, que o humor deve tudo a ela – a sutileza; assim como o teatro deve a Shakespeare; o futebol ao Pele; a música erudita a Beethoven; a física a Einstein; e a dramaturgia brasileira deve a Ariano, o, Suassuna; pois duvido que tenham personagens mais famosos no cinema brasileiro do que João Grilo e Xicó, de norte a sul do país. A propósito, um dia desses folheei na livraria do Shopping de Jacarecica – bairro em que nasci - seu celebre ‘Auto da Compadecida’ e desistir de lê-lo na primeira folha, por conta dos seus muitos e exaustivos diálogos. Tinha mesmo era que virar filme, para o contentamento de todos nós, sobretudo, os órfãos da boa sorte.

Ariano foi um desses presentes intelectuais que não se importava em parecer com um. Sem pernas cruzadas num restaurante francês, tomando vinho e fumando charuto da ilha dos Castros, para depois, balbuciar arrogâncias pueris. Não, Ariano foi um nordestino polido, maduro, poético, um filósofo didático e um contador de histórias da alma. “Foi assassinado, pelas costas, por um desconhecido, o deputado federal João Suassuna”. Quando está matéria circulou em 1930, o, Suassuna, escritor, tinha apenas 3 anos, e sequer pode ir ao enterro do pai no Rio de Janeiro, pois estava com sua mãe na Paraiba – sua terra natal.

Em 2010 eu assisti a última atuação do Chico Anisio em cima de um palco. O vi de pertinho conversar sutilmente com a plateia e fazê-la toda sorrir. Sem apelo verbal. Um gênio cansado, andado já com dificuldade, mas, leal a sua vocação, pois arte é isto, como sugeriu Ariano: vocação e festa. Naquele mesmo ano, me sentei a noite, no restaurante do Hotel Ponta Verde, a cinco metros de outro gênio. Eu tinha acabado de chegar de um tour por cidades alagoanas. O olhei confuso como se olha para um anjo, embora nunca tenha visto um.  Só no outro dia, ao ler as notícias, foi que descobri: o senhor alto, esquálido e de 83 anos da mesa ao lado, era o autor de Alto da Compadecida. Nunca ousei culpar o cansaço pela minha imperdoável distração.