Já se tornou uma piada, repetida entre zoólogos ingleses, a história de um estudante brilhante de Biologia, de Oxford, na Inglaterra, que mudou de rumo, drasticamente, após uma experiência assustadora e traumatizante.

Num final de semana, na década de 1960, ele foi acampar com a namorada. No meio da noite, foi despertado em sua barraca pela voz do diabo (!). Ele mesmo, o enxofrado, aos gritos, tirou o sossego e fez do jovem casal sua presa, na escuridão. Eles retornaram para suas casas, e o atormentado futuro biólogo deu meia-volta na sua vocação e tratou de ser ordenado pastor na Igreja Anglicana.

E qual é a piada?

Ao ouvirem essa narrativa, ornitólogos – estudam as aves - que participavam de um encontro científico caíram na gargalhada sem freios, falando quase que em uníssono: - “Pardela-sombria!”, também conhecida como “pássaro do diabo”, exatamente pelos gritos e cacarejos que emite de forma assustadora.

Claro que o agora líder religioso já acreditava na existência do demônio, algo muito acentuado nos EUA, onde 60% da população compartilham essa crença. (Infelizmente, o povo americano não dedica a mesma convicção em relação à mais bela Teoria Científica - em minha opinião de leigo: a Evolução. Nesse caso, apenas algo em torno de 40% creem nas descobertas e ensinamentos de Darwin.)

Se as aparências enganam, enganam ainda mais aos que estão propensos a ver e crer em fenômenos que, ao nos parecerem estranhos, são traduzidos no território da emoção, com o auxílio luxuoso da nossa irrestrita ignorância – e esta abraça com força o que o nosso viés de confirmação tanto deseja.

Um caso clássico é o dos discos voadores e ETs que são “vistos” no mundo inteiro com suas formas consagradas: a nave, comecemos, em forma de prato ou pires. Aliás, a expressão foi criada por um jornalista americano, em 1947, ao tentar explicar a forma daquilo que o que o piloto Kenneth Arnold teria enxergado em 24 de junho daquele ano.

Quanto aos alienígenas do espaço, estes são descritos sempre com seus olhos grandes, redondos e marcantes numa cabeça imensa. Especulando, já que o tema é propício, o nosso genial Garrincha não teria dúvidas em dizer que eles, os ETs, se parecem com o Quarentinha, o maior artilheiro da história do Botafogo: 313 gols em 442 jogos - além de ostentar a média de um gol por jogo, pela Seleção Brasileira (17). Claro: com a ajuda do “anjo de pernas tortas”.  

Sim, eu tenho a expectativa de que possa haver no infinito Universo outras formas de vida inteligentes, sem a obrigatoriedade, no entanto, de guardarem qualquer semelhança com a espécie de que fazem parte o escrevinhador e leitores e leitoras que atravessam essas sofridas linhas.

Mas a turma apronta também por aqui, e o que já é ruim sempre pode piorar.

O Senado brasileiro realizou uma audiência pública, em 2022, em homenagem à ufologia moderna (?), e, ao final, apresentou em suas notas taquigráficas uma mistura de ETs com o espiritismo, uma religião que tem quase quatro milhões de seguidores no Brasil. Os visitantes espaciais seriam espíritos encarnados em outros planetas do Sistema Solar. Digamos apenas que os dois territórios não se misturam - e por absoluta impossibilidade. 

Guimarães Rosa, no seu imortal Grande Sertão: Veredas,  apresenta dezenas de sinônimos para o nome de batismo e alcunhas do “coisa-ruim”, alertando que "o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos”.

Assim sendo, e é o que creio, posso até imaginá-lo entre tantos iguais a gente que já vi e a alguns personagens de carne e osso com quem convivi em 66 anos de chão: humano, demasiado humano.