Ricardo Mota
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A justiça e a caridade

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Era o próprio D. Hélder quem contava a anedota. Dizia que quando ele chegou ao céu, São Pedro o recebeu de braços abertos: "Pode entrar, Hélder. Você é muito bem-vindo". Mas o arcebispo de Recife e Olinda, calado, relutou em atender ao convite do porteiro do lugar. Hesitou, olhou de um lado para o outro e indagou: "E onde está a imprensa?" Terminada a piada, gargalhava aquele pequeno-grande homem. Irresistível!

E é assim que o vejo até hoje. Com saudade das suas palestras a que tive a chance de assistir. Os gestos largos seriam inimagináveis naquele corpo minúsculo, mirrado feito o de um passarinho sempre às vésperas do voo. Está claro, não se levava muito a sério, seguindo os passos de outro grande personagem da Igreja Católica que não é muito lembrado, talvez porque não tivesse o porte elegante dos príncipes e tampouco houvesse produzido uma obra intelectual citável pelos que o sucederam.

Mas foram as lições de humildade e de fino humor que me fizeram admirar e buscar conhecer um pouco das histórias de Angelo Giuseppe Roncalli, ou simplesmente João XXIII (Homem em tempos sombrios, Hannah Arendt). Ele foi papa, quase ao acaso, de 1958 a 1963, deixando um rastro de profundo humanismo - admirável em qualquer religião, e até para quem nenhuma delas professa. As pessoas, penso, são aquilo que elas fazem - muito mais do que dizem.

E o que fazia João XXIII? Nada que demonstrasse que acreditava na própria infalibidade, como confessou em seu diário. Desde que decidiu que seria assim - "Giovanni (João), não se leve tão a sério" -, reconquistou o sono que as responsabilidades do pontificado lhe haviam tirado. Nem sua morte dolorosa, nem ela, lhe roubou o sorriso que os lábios exibiam sem pudor ou constrangimento.

Mas antes de chegar ao mais alto posto da instituição, Angelo Giuseppe Roncalli já havia escrito uma trajetória de profundo humanismo e respeito pelo próximo - ou nem tanto. Na Turquia, durante a guerra, em contato com as organizações judaicas, impediu que o governo daquele país embarcasse para a Alemanha centenas de crianças judias que tinham conseguido fugir da Europa ocupada pelos nazistas. Após a invasão da Rússia foi abordado pelo embaixador alemão, Franz von Papen, que lhe pediu ajuda para influenciar o papa Pio XII a apoiar abertamente os nazistas. Um direto no queixo:

- E o que eu vou dizer sobre os milhões de judeus que seus conterrâneos estão assassinando na Polônia e na Alemanha?

Humano, extraordinariamente humano. E zeloso, também, da sua fé - sem perder o humor jamais. Ao encanador que fazia consertos nos prédios do Vaticano, praguejando em nome de toda a Sagrada Família, perguntou sem meias-palavras: "Não pode só dizer 'merda', como nós?"

João XXIII seguia um dos seus ensinamentos prediletos: "Ser manso e humilde não é a mesma coisa que ser fraco e complacente". E não negava fogo, mesmo em situações que deixariam tantos cabisbaixos e vacilantes. Ao duro Pio XII, que o recebeu em audiência, dedicou uma resposta ágil e surpreendente para a maior autoridade da Igreja, ao ouvir do próprio que tinha apenas sete minutos à sua disposição:

- Nesse caso, os seis minutos restantes são dispensáveis.

Se não se esmerava em tratos adulatórios, não gostava também que fizessem assim com o papa João XXIII. Ao jovem padre que visitava o Vaticano, esforçando-se para causar boa impressão, aconselhou: "Meu querido filho, pare de se incomodar tanto. Você pode ficar certo de que, no dia do Juízo, Jesus não vai lhe perguntar: - E como você se deu com o Santo Ofício?"

A informalidade do seu cotidiano incomodava - e muito - aos fiscais da disciplina exigida a um sumo pontífice. Fecharam os jardins do Vaticano durante os seus indispensáveis passeios matinais, por ser inadequado à sua posição expor-se aos pobres mortais de forma tão banal. Protestou com a sua habitual ironia: "Por que as pessoas não deveriam me ver? Eu não me comporto mal, me comporto?"

Parece que achavam que sim. Pelo menos no julgamento feito pelos guardiães dos bons costumes papais. Afinal, aquele homem baixinho e gordo aprontava sempre que lhe aparecia uma chance de, sozinho, lidar com a gente comum. 

Ah, de novo as suas caminhadas diárias. Conversando com empregados do Vaticano, perguntou-lhes como iam as suas vidas. Ouviu queixas sobre os baixos salários e as altas despesas. Levou o problema para a mesa de reuniões e ouviu dos presentes que não seria possível dar aumento aos trabalhadores. Para fazê-lo, teriam de cortar as doações de caridade. Impossível, portanto. Não para ele, que, inflexível, afirmou aos conselheiros:

- Então teremos de cortá-las. Pois a justiça vem antes da caridade.

SOBRE O AUTOR

Jornalista, escritor e músico.

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