Ricardo Mota
Ricardo Mota

Nós, os jornalistas

Ricardo Mota|

Na semana que passou, falei bastante ao telefone com o advogado Gustavo Ferreira, sempre disposto a traduzir o que, tantas vezes, me parece indecifrável naquela que é a sua seara: o Direito e as imanentes contradições entre os seus operadores.

Entretanto, não é sobre a hermenêutica que eu gostaria de falar neste texto domingueiro. Na verdade, o papo com o Gustavo rola sempre muito agradável porque temos algumas características em comum - um trocadilho, um chiste, e a conversa segue em terreno plano, de nenhuma aspereza.

Ao concluir uma consulta sobre a batalha do tampão, por esses dias, disse a ele que diferentemente da sua turma profissional, de palavras à mão cheia, a minha – os jornalistas – gosta do carimbo, do selo, de uma palavra de ordem que atraia a atenção imediata de quem está do outro lado. O que facilita, convenhamos, a audiência, principalmente se há escândalo: Lava-jato, Taturana, Rodoleiro – nomes bastante conhecidos do público local.

Sabedores dessa nossa fraqueza, PF, MP, PC e outras instituições trataram de usar e abusar da criatividade, passando para nós, da imprensa, um pacote pronto: nome de batismo de impacto de suas operações espetaculares - alguns falsamente eruditos -, com cifras assustadoramente altas e quase nunca confirmadas.


Esse nosso gosto pelo hiperbólico e até pelo absurdo, decorrente muitas vezes da trivial preguiça, confesso, já havia sido identificado com clareza por Émile Zola, no devastador Eu acuso, lançado no final do século XIX. Qualidades, nós as temos, ele reconhece, mas também aponta o nosso defeito mais notável:

- A imprensa é uma força necessária; creio, em suma, que ela faz mais bem do que mal. Mesmo assim, alguns jornais são culpados, uns por desnortear, outros por atemorizar, a fim de triplicar suas vendas.

Antes dele, Honoré de Balzac (20 de maio de 1799 a 18 de agosto de 1850) não escondeu sua mágoa com os que criticavam tanto, no papel impresso, uma obra que sobreviveu ao tempo, coisa que o relato do cotidiano nem sempre consegue. Em Os Jornalistas, ele escreveu:

“Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la.”

Uau, doeu!

Mas é provável que, vivendo nos tempos de agora, ele próprio tratasse de “inventar” a imprensa necessária ao bom combate, enfrentando a estupidez e trazendo luz à mentira, que nunca teve pernas tão longas, e que, feito uma Hidra, sai dos pântanos para percorrer os caminhos virtuais e não menos pantanosos.

Se o grande ficcionista francês – A comédia humana é um dos grandes clássicos da literatura universal - não conheceu as redes sociais, onde a velocidade conta bem mais do que a busca pela verdade, ele já dava um sinal de que como seria fácil - replicando e multiplicando nossos defeitos – a vida dos influenciadores digitaisque arrebatam um público cada vez maior (e nem sempre apenas com futilidades. É na seara política que o mal
faz seus piores estragos, apenas falando a “língua dos homens”):

- O jornal que tem mais assinante é aquele que se assemelha melhor à massa: conclua! 

Para os jornalistas, buscar o sucesso fácil das redes, para comunicar mais amplamente, pode ser apenas cair em uma velha armadilha. Ignacio Ramonet, no seu A tirania da comunicação, já nos alertava para “este paradoxo: quanto mais se comunica, menos se informa, portanto mais desinforma”.

Não, eu não estou fornecendo munição aos inimigos do jornalismo profissional, exercido por pessoas falíveis - e assim devemos  nos “descobrir” - como quaisquer outras. Esta é apenas uma pequena reflexão sobre o que somos e o que fazemos, considerando, é claro, a diversidade que também abrigamos. Até porque é na atual quadra da humanidade, em que a mentira e a ignorância mais facilmente prosperam, conquistam corações e mentes, que mais se faz necessária a lida dos que levam a sério a atividade de informar sem deformar pelo ódio e pela negação do conhecimento conquistado pela humanidade.

Mesmo que esta se torne uma tarefa de alto risco, como nos dias de hoje, em que a teoria da conspiração e o culto à ignorância se tornaram uma realidade tão cruel quanto palpável - e precisam ser combatidas.

Eu, por meu lado, ainda exercendo o jornalismo político aqui na terrinha - só dando folga aos leitores de domingo -, fico com Millôr Fernandes, que desnudou duras verdades com tanto humor:

- Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.

Não é tudo, mas já é alguma coisa. 

SOBRE O AUTOR

Jornalista, escritor e músico.

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