Depois que a frase ganhou notoriedade, tudo parece óbvio demais para uma mente apurada. Mas o pensador francês La Rochefoucauld não haveria de saber que, tendo nascido e morrido no século XVII, deixaria como legado uma verdade inquestionável.

Vamos a ela:

- O acaso e o capricho governam o mundo.

Se a ciência se apoderou, com propriedade, da boutade do parisiense empoado, esta diz respeito a todas as coisas vivas e as que precisam viver. Assim como as pessoas, as palavras e os conceitos são guiados às cegas, desde a sua origem. Nascem para denotar algo ou alguma coisa e podem se perder, ao acaso, até que se transformem em um novo rebento, com gostos e sentidos próprios.

Antes de tornar-se conhecida como um maneirismo próprio da internet, a palavra meme designou, originalmente, "uma unidade de transmissão cultural, ou de imitação". Ou seja: algo que se replicava de geração em geração, considerando hábitos e costumes das sociedades e/ou dos povos. Seu criador, o biólogo Richard Dawkins (em O gene egoísta, a base da sua leitura e interpretação de Darwin), falava de coisas sérias, como, por exemplo, as religiões - ainda que não as tratasse como parte fundamental da necessária evolução cultural humana. Mas este é outro papo, quem sabe para tempos mais amenos e tolerantes. Dia de São Nunca? E por que não?

Hoje, ao se anunciar um meme, de imediato, aguardamos algo que seja risível, já descolado integralmente da ideia original. O que ficou? A repetição sem freios do objeto,  sonho e desejo de influenciadores digitais e aspirantes a celebridade instantânea. 

Dawkins não cobra royalties da sua criação. Como um sujeito inteligente e que enxerga o mundo real, no máximo, há de viver como um ghost writer de algum best-seller, torcendo para que alguém descubra sua genialidade (ele criou até uma nova disciplina, a Memética, dedicada ao estudo dos...).

E o que dizer do coquetel Molotov? 

O artefato, de baixo custo e alta eficiência, está associado a manifestações de estudantes e trabalhadores em todo o mundo, no enfrentamento, principalmente, das forças de repressão. É uma arma artesanal inventada e batizada pela... Finlândia! Exatamente para combater os russos, ou impedir o avanço do Exército Vermelho em terras nacionais (deles), na Guerra de Inverno, em 1939.

Com um surpreendente humor para o momento, os finlandeses se apoderaram do nome do então ministro das Relações Exteriores da Rússia, Viatcheslav Molotov, para batizar a bomba feita de gasolina, alcatrão e querosene, numa eficaz e mordaz vingança. A autoridade soviética explicava ao mundo a invasão - e, notadamente, os bombardeios que faziam -, afirmando que eles estavam lançando pacotes de alimentos na Finlândia. Eram “as cestas de pão de Molotov”, disseram os que esperavam no solo pela bondade explosiva. O coquetel, então, nasceu para acompanhar o "alimento" - um combinado de sarcasmo e fogo.

Deu no que deu – e dá até hoje: o uso/costume, repetido feito um meme, de geração em geração, criou um símbolo de resistência civil a ações militares - internas ou externas. Melhor para Molotov, está claro, que teve o nome eternizado por algo que ele não criou e que lhe era mortal.

Já disseram que o sonho de qualquer ideia é se tornar senso comum. É o auge do sucesso, mas até este tem de contar, como parceiro indissociável, com o tal do acaso. Vai melhorar se acrescentarmos uma pitadinha de capricho, numa justa homenagem a La Rochefoucauld.

Afinal, quem há de saber para que lado apontará amanhã a biruta do mundo?