Ricardo Mota
Ricardo Mota

Porque não a vida não bastava

Ricardo Mota|
Foto: Ilustração

Se eu pudesse e tivesse de escolher uma entre tantas qualidades que podem ser atribuídas à arte, eu optaria pela permanência. A arte fica, e o que não o é passa e vai embora. O tempo é impiedoso nessa seleção permanente e, creio, natural.

O Maestro Soberano Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim foi precioso e preciso ao dizer, em QueridaLonga é a arte/ Tão breve a vida. Ainda que não o soubesse. Porque desconfio – e bem desconfiado – que o artista não há de se dar conta do mel enquanto manipula o néctar das flores, no exato instante do seu ofício.

Para comprovar com sobras os seus versos, Tom poderia citar seus ídolos, base da sua formação - Debussy e Villa-Lobos -, além dos seus contemporâneos e iguais, que vêm de longe e ainda mais longe vão. A música jobiniana é tocada no mundo inteiro - até no Brasil! -, e já se vão quase 30 anos desde a sua morte (8 de dezembro de 1994). E assim sempre será - como acontece com Beethoven, Chopin e tantos outros clássicos (não se trata de comparação, eles trilharam caminhos diferentes e chegaram a resultados perenes).     

Citei apenas criadores da mais popular de todas as artes, a música, tão indispensável – a não ser para João Cabral de Mello Neto –, que Nietzsche cofiou longamente os sisudos e memoráveis bigodes antes de dizer que a vida sem ela “é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”. E eu vou lá discordar de um sujeito que teve a audácia de inventar o "super-homem"?

Já que falamos de qualidades que distinguem a arte do entretenimento, por exemplo, cito mais duas que eu consigo identificar como indispensáveis na sua existência: a capacidade que ela tem de emocionar e de fazer pensar. Ainda que, neste último caso, estejamos tratando também da fantasia, um pensamento que navega na nossa alma, livre, sem vislumbrar o porto de chegada – e que a ele nem sempre chega.

As definições sobre o que é a arte são tantas, tão variadas - e até ainda não inventadas -, que é possível que cada um nós, soberbos ou humildes, tenha a sua. É claro, sem distendê-la ao ponto de que todos possam ser considerados artistas. Somos, na verdade e majoritariamente, apreciadores ou devoradores – a depender do grau de apreço – da arte, em todas as suas manifestações. Ignorá-la ou rejeitá-la também faz parte daquilo que é a condição da nossa espécie.

Se pouco pude dar aos meus filhos do que eles vão carregar para a vida toda, desconfio que meu maior acerto foi apresentá-los, insistentemente, às artes de que mais gosto – a música e o cinema -, o que eles exercitam até hoje, mesmo que com variações humanas de gosto (que não me desgostam). A arte, creio, desanimaliza-nos e rivaliza com a barbárie; com esta rola em porfia no chão da variada existência humana, aplicando-lhe golpes sutis, elegantes, mais jeito do que força. E quase sempre vence.

E haveria arte popular na mesma valia da erudita?

Perdoem-me a inexistente modéstia, no caso, mas busco nos bons os argumentos para fechar os espaços da minha má-formação. Vejam o que disse Montaigne, o mais universal e comum de todos os franceses (é só a minha opinião):

"A poesia popular e puramente natural tem singelezas e graças pelas quais se compara à excelsa beleza da poesia perfeita quanto à arte".

Se vale para a poesia, há de valer para outras manifestações artísticas, que nos emocionam e nos fazem pensar. E aqui há de se considerar o urdido na tecelagem criativa do homem comum com o mesmo respeito que lhe dedicou Ariano Suassuna - para quem “em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto”. Nem um nem outro, a arte popular é arte - e da boa. O brega está em outro quadrado.

E por mais que eu circule em torno do tema, busque argumentos, pense sobre ele, não consigo encontrar nada que se aproxime do momento de rara iluminação de Ferreira Gullar, outro magnífico artista, ao resmungar com ardor sobre o seu pão de cada dia:

"A arte existe porque a vida não basta".

Simples assim.

SOBRE O AUTOR

Jornalista, escritor e músico.

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